A decisão do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Samir Xaud, de impedir que os goleiros da Seleção Brasileira utilizem uniforme vermelho na Copa do Mundo expõe uma contradição difícil de ignorar. O dirigente afirma que sua posição não tem motivação política, mas suas próprias atitudes apontam na direção oposta. Em 2025, ele já havia vetado o lançamento de um segundo uniforme vermelho para a Seleção. Agora, repete o movimento ao solicitar à Fifa a troca do uniforme dos goleiros, originalmente previsto na mesma cor. Quando uma cor passa a ser proibida não por critérios esportivos, técnicos ou regulamentares, mas por interpretações ideológicas, o que está sendo feito é política.
O argumento de que apenas as cores da bandeira devem representar o Brasil também não resiste a uma análise histórica mais profunda. O Brasil não se resume ao verde, amarelo, azul e branco. O próprio nome do país possui uma relação direta com a cor vermelha. A palavra "Brasil" deriva do pau-brasil, árvore valorizada pela extração de uma tintura avermelhada que marcou os primeiros ciclos econômicos da colonização portuguesa. Em outras palavras, o vermelho está presente na própria origem histórica e etimológica da identidade nacional.
Há ainda uma ironia evidente na defesa intransigente das cores da bandeira como se elas representassem uma essência imutável da nacionalidade brasileira. O verde e o amarelo não nasceram das florestas e das riquezas minerais do território brasileiro, como durante décadas se ensinou nas escolas. Essas cores têm origem nas dinastias europeias que governavam Portugal e o Império do Brasil. O verde está associado à Casa de Bragança, enquanto o amarelo remete à Casa de Habsburgo. São símbolos ligados à monarquia e ao passado colonial, não a uma suposta identidade nacional eterna.
O futebol brasileiro sempre foi maior que disputas partidárias. A camisa da Seleção pertence aos brasileiros, não a grupos políticos nem a interpretações ideológicas momentâneas. Ao transformar uma simples cor em motivo de veto, Samir Xaud contribui para aprofundar divisões artificiais e reduzir a riqueza simbólica da própria história nacional. O resultado é uma gestão que tenta despolitizar o debate enquanto pratica exatamente aquilo que diz combater: a utilização política dos símbolos do Brasil.
A Seleção Brasileira construiu sua grandeza pela diversidade, pela criatividade e pela capacidade de representar um país complexo e plural. Restringir essa representação por razões ideológicas não fortalece a identidade nacional. Apenas empobrece o futebol e diminui o significado de uma camisa que deveria unir, e não separar, os brasileiros.