“Prepara o seu coração. Pras coisas que eu vou contar…” ( Disparada, Jair Rodrigues)
Aos 18 anos, tive contato com a obra do filósofo René Girard, intelectual francês do mais alto calibre. Girard, dando devida atenção à alta literatura de grandes nomes como Cervantes, Proust, Shakespeare, Dante e outros, observou um fenômeno que também e explica um pouco acerca da realidade factual, na qual intitulou: “Desejo mimético”. O mimetismo vem de “mimesis “ que significa: imitação. Resumindo todo o seu escopo, sua tese aponta que alguns desejos não provém da nossa necessidade em si, mas vem da imitação que temos de um mediador. Facilitando a compreensão ainda mais, desejamos algo porque alguém deseja aquilo. Queremos ser o que muitas vezes o outro já é. Quando amigo, para validar e melhorar nossa referência. Quando inimigo ou desafeto, para lapidar e fazer bom uso de características que o outro não rende, ou não dá tanta importância assim. Por isso, cremos que daremos nossa cota de contribuição.
Em live- o que me soa muito atípico- o senador Ciro Nogueira, confirmou o presidente estadual do Progressistas, Joel Rodrigues, como pré-candidato ao Governo do Piauí. Acompanhei a live muito curioso para saber o desenrolar da história. Nos primeiros minutos de fala, Ciro apresenta o “filho do carroceiro “, Joel Rodrigues como a escolha da base oposicionista. Após um comentário aqui e outro acolá, Joel começa com seus dizeres. Sua história de vida sofrida. Sua história de vida marcada pela dificuldade. Sua história de vida, até então, sem uma perspectiva de vida melhor. Por pouco não me emocionei. Afinal, faz parte do aspecto sofrível uma melhor forma de identificação, ademais, quem nunca sofreu ou quem nunca se sensibilizou, ante o sofrimento alheio? Não é o discurso que convence ou o exemplo que arrasta. É o sofrimento de um que desarma o outro. Aqui, a fragilidade e fraqueza são diferentes. Aos olhos desatentos, muita coisa pode passar despercebida. Todavia, para quem se atenta aos pormenores, consegue captar sórdidos detalhes, conscientes e/ou inconscientes.
De forma bem resumida e em termos psicanalíticos, Lacan- grande intelectual e psicanalista- nomeou a palavra “gozo” para nomear uma experiência que Freud já tinha descrito há muito tempo atrás no que concerne às nossas satisfações e impulsos. O “gozo” aqui só pode ser entendido afastando-se do significado atribuído pelo senso comum, que é a esfera sexual. Não, não é sobre este “gozo” que falo, mas sobre o que a Psicanálise coloca num novo sentido à essa palavra. O conceito de gozo, nestes termos psicanalíticos, designa uma experiência onde nossa “satisfação “ é experimentada sem saber por meio do sofrimento quanto ao próprio uso e desfrute dessa problemática para a obtenção de satisfação e prazer, entre as muitas atribuições e explicações para esse termo. Ou seja, como não experimentamos conscientemente a dor e sofrimento no positivo da palavra, experimentamos inconscientemente pelo “gozo” que isso trás. É mais ou menos assim. A história dificultosa de Joel, hoje, é revestida de gozo para através disso, passar adiante sua existência como alguém que conhece bem os dilemas humanos, e com isso, reverter em simpatia e empatia os olhares que se cercam. O “bom” não é sobre somente o que faz agora ou o que é presente, mas o que queria ter sido numa época em que tudo lhe faltava, e por esse sentimento de identificação, plantar a semente dos iguais.
Entretanto, Joel não convence, não arrasta e tenta desarmar, só que mal. O “filho do carroceiro” ainda vive à margem de um benfeitor, Ciro Nogueira. Acompanho um pouco sua rede social. Seu nome não está pelo seu nome. Sua identidade política não tem DNA próprio. Tem força de vontade emprestada. Tem coragem alugada. Tem história com autoria dividida. Não existe problema em ter referências e muita gratidão aos que vieram primeiro, ou aos que acreditam em sua potencialidade. Eu mesmo já tive alguns na sua determinada proporção que cabe, mas a questão é: É o Joel que fala por si só, ou é o Ciro, entusiasmado com o discurso sensível que tenta dialogar com as pessoas através dele?
Joel tenta emplacar um discurso parecido com o de Lula. Porém, as diferenças são gritantes. Lula fez de sua história de vida um modelo não somente de superação, mas de revolução. Não é sobre sair de onde está, mas voltar e mudar pra melhor. Joel com certeza está numa posição melhor que outrora, mas ele volta no “gozo” inconscientemente de seu sofrimento para ver o que não foi dito ou lembrado para aproveitar e incrementar ainda mais seu discurso. Ele não volta para mudar. Ele regressa para ter certeza que usou bem de um lugar que agora pode alegar, conforme seu patrão pede.