“Eu sou pessoa. A palavra pessoa hoje não soa bem. Pouco me importa” (Belchior, conheço meu lugar)
Acompanhando mais um destes podcasts que encontramos de valor nesta terra ainda desconhecida chamada internet, encontrei uma pérola. Uma maravilhosa entrevista da filósofa Marilena Chauí. Ela falava com muito entusiasmo acerca de um episódio onde Lula e Brizola trocaram algumas palavras durante a assembleia dos metalúrgicos no Estádio de Vila Euclides. São Bernardo do Campo, 1979. Na ocasião, Brizola sugeriu ao Lula- simbolicamente falando- que desse peixe às pessoas. Lula então sabiamente devolveu dizendo: “Não, Brizola. Precisamos ensinar o povo a pescar”. O até então metalúrgico falara com propriedade, pois esta propriedade lhe era concedida pelo tempo. O tempo é o responsável por fazer entender a necessidade de oportunizar momentos e contextos de aprendizados. Se a mãe da invenção é a necessidade, com certeza o melhor professor da vida é o tempo.
Em 2018 Bolsonaro foi eleito presidente de um Brasil, que anos depois a partir do seu mandato, caiu nas sombras do desconhecido e da indefinição. De que Brasil estávamos falando? Bom, sabemos bem o que nos ocorreu, e quantas perversões que outrora estavam adormecidos no discurso de alguns, surgiram e inflamaram na mente popular com receitas simples e nefastas de como melhorar o mundo. Bolsonaro, até então, não é qualquer persona nessa peça trágica. Ele é a estrutura divulgadora de uma linguagem opressora que é reivindicada e patrocinada por muitos. O fetiche do poder pelo poder dessa direita que cresceu nos últimos tempos está na decorrência dessa estrutura divulgadora de ideais simplistas para problemas éticos e complexos. Hoje, Bolsonaro encontra-se preso e terá que arcar com seus crimes. Apenas alguns pingados sofrem com isso, já o sistema que lhe patrocinou não precisa mais. Bolsonaro, ainda que esteja na cadeia, conseguiu infundir ideias dominantes numa comunicação de senso comum que a direita tem, e que a esquerda luta para conseguir rebater. Muitas vezes em vão. Não entendeu o que eu quis dizer? Deixe-me explicar melhor. Pois podemos e é legítimo comemorar a prisão do mesmo, mas entendendo que ele é instrumento visível de algo que muitas vezes soa como sem identidade. Invisível.
“Bandido bom, é bandido morto”. Quem nunca escutou uma frase como esta e promovida pelo próprio Bolsonaro? Ou seja, infundiu-se a ideia de senso comum que para reduzir a criminalidade, basta sair matando. Após o mesmo fazer florescer essa máxima numa sociedade marcada por divisões e arbitrações, cresce a fantasia de muitos que o seu espaço será respeitado eliminando tudo e todos que lhe atravessam. Numa sociedade do aqui e agora sempre frenético, numa sociedade que se escuta o áudio acelerado numa mensagem de voz no WhatsApp por uma suposta “falta de tempo” para ler uma mensagem propriamente dita, escancaramos nosso egoísmo e nossa individualidade com soluções tão nefastas, quanto mirabolantes. Quem também nunca ouviu falar “Quer algo na vida, só correr atrás que você consegue. Pois é só acreditar nos seus sonhos”? Pois é, afinal, ao mesmo tempo que estamos diante do outro, fazemos de tudo para que o outro e seus respectivos dilemas se afastem de nós. Ora, a meritocracia está aí nas entrelinhas para isto. “Deus, pátria e família”. Mas qual Deus? O que se considera como pátria, ou o que é família para você? Bolsonaro, patrocinado por um forte sistema da extrema direita, divulgou e vendeu a ideia de soluções simples para camuflar o ódio de pessoas e projetos opostos aos deles. Como disse, Bolsonaro está preso, e sob certa medida “calado”, mas ele conseguiu muito bem divulgar essa estrutura verbal. Tanto conseguiu que a prova está aí: Um Congresso conservador e radical, movida pelo desavergonhamento de alguns brasileiros que podem em alto e bom som, entoar e arrogar seus preconceitos sob a velha desculpa da “liberdade de expressão”. Aqui está uma luta que a esquerda precisa fazer, e por isso a esquerda ainda tem muita dificuldade de falar nas mais variadas plataformas. É que a esquerda, como muito bem lembra a Marilena Chauí em sua obra “Cidadania cultural: O direito a cultura” (2006), precisa seguir certos passos, onde nem todo mundo se presta a atentar-se, seja pela celeridade digital, seja pelo egoísmo que cega ao direito do outro se expressar como bem entender nos dinamismos da vida. Precisa-se desmontar o senso comum. Se bandido bom é bandido morto, quem define o que é bandido? Bolsonaro, uma vez julgado e condenado merece ser morto, por exemplo? E assim vai.
É preciso ensinar a pescar os peixes. Ou seja, voltar aos debates, voltar ao despertar das consciências, discutir sobre qual realidade nós estamos e desmascarar o que está por trás do discurso simples. Bolsonaro está preso para nossa alegria. Veremos ele pagar pelos seus crimes. Todavia, nosso real inimigo não está derrotado, ele está por aí fazendo com que o cidadão que mora na favela, fale contra e condene a favela.