Polícia indicia Bolsonaro, Eduardo e Malafaia: veja como tudo aconteceu e a reação dos indiciados

Mensagens entre indiciados revelam insultos, articulações internacionais e tentativa de obstrução de Justiça

Mensagens extraídas do celular de Jair Bolsonaro pela Polícia Federal (PF) revelam um enredo de conflitos familiares, pressões internacionais e tentativas de obstrução de Justiça envolvendo o ex-presidente, seu filho Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o pastor Silas Malafaia. O material foi anexado ao inquérito que apura a trama golpista de 8 de janeiro de 2023 e serviu de base para o indiciamento dos três nesta quarta-feira (20).

As primeiras tensões: julho de 2025

No dia 7 de julho, Eduardo Bolsonaro enviou mensagens ao pai deixando claro que sua prioridade era evitar a condenação do ex-presidente no Supremo Tribunal Federal (STF), e não uma eventual anistia aos golpistas do 8 de janeiro. “Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar”, escreveu. O parlamentar sugeria que o pai precisava escolher entre pressionar o STF ou garantir impunidade pessoal.

Poucos dias depois, em 11 de julho, Silas Malafaia interveio com críticas a Eduardo. Em mensagens a Jair Bolsonaro, chamou o deputado de “babaca” e “inexperiente”, acusando-o de dar munição à esquerda. O desabafo ocorreu após o governo Donald Trump anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, justificando a medida como resposta ao julgamento do ex-presidente no STF, que classificou como “caça às bruxas”.

Em 15 de julho, uma entrevista de Bolsonaro ao portal Poder360 serviu de estopim para um confronto aberto com o filho. Eduardo, irritado por ter sido chamado de “imaturo” pelo pai, disparou ofensas: “VTNC, seu ingrato do caralho! Me fudendo aqui! Você ainda ajuda a se fuder aí!”. A discussão incluiu ameaças de levar informações à inteligência americana e de prejudicar a relação com Trump. No dia seguinte, o deputado recuou e pediu desculpas, alegando ter “pegado pesado”.

Pressões sobre Trump e ataques ao Brasil

As mensagens recuperadas mostram que Eduardo atuava nos Estados Unidos em defesa exclusiva do pai. Ele insistia para que Bolsonaro fizesse gestos públicos de apoio a Donald Trump, sob risco de perder o respaldo político do republicano. Em paralelo, o deputado passou a produzir conteúdos em inglês para difundir a narrativa de perseguição internacional contra o clã.

O comportamento se agravou em agosto, quando Eduardo publicou vídeos ameaçando a estabilidade financeira do Brasil. Ele sugeriu que a aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras poderia levar o Banco do Brasil à falência, incentivando fuga de capitais. As falas geraram forte reação negativa: pesquisa Quaest apontou que 69% dos brasileiros o consideram um “traidor” que age por interesse próprio, enquanto 55% rejeitam a postura de Jair Bolsonaro diante do tarifaço de Trump.

Malafaia como conselheiro

Além de ataques e xingamentos, Malafaia também atuava como conselheiro político. Em julho, sugeriu a Bolsonaro um discurso para relacionar as tarifas de Trump a uma suposta luta por “liberdade e justiça”, orientando o ex-presidente a evitar críticas diretas ao STF. “Você vai ficar bonito, dando uma de bacana ainda”, afirmou. Poucos dias depois, em 25 de julho, mesmo proibido de manter contato com investigados, o pastor enviou vídeos a Bolsonaro pedindo disparo em massa nas redes.

Na noite de 20 de agosto, Malafaia foi alvo de mandado de busca e apreensão no Aeroporto Internacional do Galeão (RJ). A PF confiscou seus celulares e impôs medidas cautelares, incluindo a proibição de deixar o país.

Transferências suspeitas e plano de fuga

As investigações também apontaram para movimentações financeiras suspeitas. Em 21 de fevereiro de 2024, um dia antes de depor à PF, Bolsonaro transferiu R$ 2 milhões para a conta da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, temendo bloqueios judiciais. A corporação considerou a operação como tentativa de ocultação patrimonial.

Outro elemento revelado foi um documento de 33 páginas salvo no celular de Bolsonaro, no qual ele cogitava pedir asilo político ao presidente da Argentina, Javier Milei. O texto foi atualizado em 5 de dezembro de 2023, pouco antes de Bolsonaro viajar a Buenos Aires para a posse de Milei. Para a PF, o rascunho evidenciava um plano de evasão diante do avanço das investigações no STF.

Indiciamentos e reações

Com base no conjunto das provas, a PF indiciou Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia por coação de autoridades, tentativa de obstrução de Justiça e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O relatório sustenta que os três agiram de forma coordenada para pressionar o Judiciário, mobilizar apoiadores e buscar apoio estrangeiro.

O senador Flávio Bolsonaro reagiu acusando perseguição política e “religiosa”. Em redes sociais, atacou o ministro Alexandre de Moraes e defendeu Malafaia. Paralelamente, o relatório da PF revelou que Jair Bolsonaro chegou a bancar a estadia do filho nos EUA por meio de transferências via Pix.

Caberá agora à Procuradoria-Geral da República decidir se oferece denúncia formal ao STF. Enquanto isso, Bolsonaro segue em prisão domiciliar por descumprir medidas cautelares, aguardando julgamento da ação penal marcado para setembro.