A movimentação recente da família Bolsonaro nas redes sociais e no debate político volta a expor um traço recorrente do bolsonarismo: a disposição de recorrer a forças externas para retomar o poder no Brasil, mesmo que isso signifique tensionar a soberania nacional ou admitir cenários que possam causar danos ao próprio país.
Na sexta-feira (7), o vereador licenciado e ex-integrante da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, voltou ao centro da articulação digital do bolsonarismo. Conhecido por ter comandado o chamado “Gabinete do Ódio” durante o governo de Jair Bolsonaro, responsável por mobilizar militantes radicais nas redes sociais, Carlos retomou o tom conspiratório a poucos meses da próxima disputa presidencial.
Em uma publicação feita na rede X, ele divulgou uma informação falsa sugerindo que a chamada “Seção 301” da legislação dos Estados Unidos poderia ser usada no Brasil pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Segundo a narrativa difundida por ele, a medida permitiria que agentes da CIA atuassem em território brasileiro realizando investigações e prisões.
A publicação insinuava ainda que Mendonça poderia usar esse suposto instrumento para agir dentro do país com apoio dos Estados Unidos. “O ministro pode usar a seção 301 dando poderes em território brasileiro a agentes da CIA para investigações e prisões. Com isso, Mendonça faz uma jogada de mestre sobre seus pares”, dizia o texto compartilhado por Carlos Bolsonaro, acompanhado da provocação: “Será?”.
A informação, no entanto, é completamente falsa. A Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, criada em 1974, é um mecanismo utilizado pelo governo norte-americano para investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais às exportações do país. A legislação permite a adoção de medidas econômicas unilaterais, como tarifas ou sanções comerciais, mas não possui qualquer relação com operações policiais, ações de inteligência ou intervenções armadas em território estrangeiro.
Mesmo assim, a mensagem viralizou em círculos bolsonaristas e acabou sendo contestada até por seguidores do próprio campo político, que apontaram a impossibilidade jurídica da tese.
A retórica que sugere ou celebra a intervenção de forças estrangeiras no Brasil não é inédita dentro do clã Bolsonaro. Em outubro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, também provocou polêmica ao comentar uma operação militar dos Estados Unidos no Caribe.
Na ocasião, o secretário de Defesa norte-americano anunciou que embarcações suspeitas de transportar drogas haviam sido destruídas por forças militares dos EUA. Ao reagir à notícia nas redes sociais, Flávio Bolsonaro afirmou sentir “inveja” da ação.
“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”, escreveu o senador ao se dirigir às autoridades americanas.
A declaração foi interpretada como uma sugestão explícita de atuação militar estrangeira dentro do território brasileiro — algo que, na prática, significaria violar a soberania nacional e colocar em risco civis brasileiros.
O episódio ganhou ainda mais gravidade porque um ataque semelhante realizado por forças norte-americanas contra uma embarcação no Caribe, próximo à Venezuela, deixou sobreviventes e levantou dúvidas sobre possíveis mortes e sobre o destino das pessoas que estavam a bordo. Até hoje não há clareza sobre o que ocorreu com os ocupantes da embarcação atingida.
Mesmo diante desse cenário, a reação de setores do bolsonarismo foi de celebração ou admiração pela ação militar.
Esse tipo de discurso alimenta uma crítica recorrente dirigida à família Bolsonaro: a de que parte do grupo político demonstra mais disposição para recorrer à pressão internacional ou a intervenções externas do que para apresentar propostas concretas de desenvolvimento nacional.
Para críticos do bolsonarismo, a lógica que permeia esse comportamento é simples: a obsessão pela retomada do poder político, custe o que custar — inclusive com narrativas que naturalizam a presença de forças estrangeiras em território brasileiro.
Na avaliação de analistas políticos, a recorrência dessas falas também revela um padrão de atuação que mistura desinformação, radicalização e provocação institucional. Trata-se de um método político que aposta no conflito permanente e na mobilização emocional de apoiadores.
Enquanto isso, a própria trajetória da família Bolsonaro segue sendo marcada quase exclusivamente pela ocupação de cargos públicos. O patriarca, os filhos e aliados próximos construíram carreiras inteiras dentro do aparato estatal, sem histórico relevante de atuação fora da política institucional.
Esse contraste reforça uma percepção que cresce entre adversários e críticos: a de que o bolsonarismo se apresenta como um movimento anti-sistema, mas ao mesmo tempo depende integralmente do próprio sistema que afirma combater.
E, na busca por permanecer no poder ou retornar a ele, não hesita em flertar com narrativas que relativizam a soberania brasileira — mesmo quando essas narrativas envolvem cenários de intervenção estrangeira que poderiam atingir diretamente a população do próprio país.