Estamos em junho. E, mais uma vez, assisto ao mesmo espetáculo se repetir. Prefeitos ávidos por fotografias aéreas de multidões e "promotores culturais" preocupados apenas com a bilheteria podem comemorar: vocês venceram.
As praças estão lotadas, os números impressionam, os vídeos viralizam nas redes sociais e os discursos oficiais celebram o sucesso dos eventos. Mas existe uma pergunta que ninguém parece disposto a responder: lotação é sinônimo de tradição?
Não. Definitivamente não.
Festa pode até ser. Tradicional, não.
Tradição não é apenas repetir um costume antigo. Tradição é a transmissão de saberes, práticas, símbolos e valores que atravessam gerações e ajudam a construir a identidade de um povo. É memória coletiva. É pertencimento. É herança cultural.
Por isso me incomoda profundamente ver festas de São João do Nordeste transformadas em grandes festivais sertanejos, muitas vezes complementados por atrações que nada têm a ver com a cultura deste momento, como a música gospel. Na terra que deu ao Brasil o forró, o baião, o xote, o arrasta-pé e tantos outros ritmos que contam nossa história, a presença cada vez menor dos artistas forrozeiros revela um processo silencioso de apagamento cultural.
O argumento é sempre o mesmo: "o público quer isso". Mas quem moldou esse público? Quem decidiu, durante anos, investir milhões em determinados artistas enquanto abandonava os músicos que carregam a tradição cultural nordestina? Quem transformou os festejos de São João em uma disputa por recordes de público, deixando a cultura em segundo plano?
Parabéns aos gestores públicos que enxergam a cultura apenas através dos números. Parabéns aos "promotores" que medem o sucesso de uma festa exclusivamente pela arrecadação. Vocês estão conseguindo algo que parecia impossível: enfraquecer nossos vínculos culturais, apagar nossa memória coletiva e matar uma herança construída ao longo de séculos.
Por isso faço um pedido simples. Realizem suas festas. Contratem quem desejarem. Reúnam multidões. Quebrem recordes de público. Façam os shows que julgarem mais rentáveis.
Mas não chamem isso de São João.
Não tentem vender como celebração da cultura nordestina aquilo que cada vez mais se distancia dela.
O São João nasceu ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. Nasceu nos terreiros, nas comunidades, nas fogueiras, nas quadrilhas e nos encontros familiares. Sua alma sempre esteve ligada ao forró e às manifestações populares do Nordeste.
O que vemos hoje em muitos municípios é outra coisa: uma indústria do entretenimento travestida de tradição.
E aqui assumo uma opinião que certamente desagradará muita gente. A música sertaneja que domina os palcos de junho não chegou até onde chegou apenas por mérito artístico. Ela foi impulsionada por uma poderosa engrenagem econômica e publicitária que ajudou a construir uma narrativa positiva para setores específicos da economia brasileira, especialmente o agronegócio. Houve investimento pesado, promoção massiva e ocupação sistemática de espaços culturais antes pertencentes a outros gêneros musicais.
Posso comprar uma briga com metade do país ao dizer isso, mas continuo convencido de que grande parte do sertanejo comercial que hoje monopoliza os festejos juninos está muito distante da riqueza musical, poética e identitária do forró.
O problema não é a existência do sertanejo. O problema é sua hegemonia.
Culturas morrem não quando são proibidas, mas quando deixam de ocupar seus próprios espaços. E o que estamos testemunhando, ano após ano, é justamente isso: o encolhimento do espaço do forró dentro da maior festa popular do Nordeste.
Talvez as praças estejam mais cheias do que nunca. Mas, culturalmente, estamos ficando cada vez mais vazios.
P.S.: Para quem acha que estou exagerando, basta observar o caso de Flávio José. Um dos maiores símbolos vivos do forró nordestino ficará fora do São João da Bahia em 2026 após questionamentos sobre o valor de seu cachê. Enquanto isso, artistas sem qualquer ligação com a tradição junina seguem recebendo cifras milionárias para ocupar os principais palcos da festa. Não poderia haver exemplo mais claro do que estou denunciando: o problema não é falta de dinheiro. O problema é a escolha de quem merece recebê-lo.
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