Petrobras descarta reajuste imediato mesmo com petróleo alto

Estatal prefere aguardar definição do mercado internacional antes de decidir sobre combustíveis no Brasil

A presidente da Petrobras afirmou que não haverá reajuste imediato nos preços de combustíveis, mesmo com a alta do petróleo no mercado internacional. Segundo a direção da empresa, o cenário global ainda é instável e não permite concluir se o aumento do barril é temporário ou uma tendência duradoura.

O que aconteceu

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou nesta sexta-feira (6) que a companhia não pretende realizar reajustes imediatos nos preços da gasolina e do diesel no Brasil, apesar da forte valorização do petróleo no mercado internacional.

De acordo com informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a dirigente explicou que o cenário externo ainda apresenta grande instabilidade, o que dificulta qualquer decisão precipitada sobre os valores cobrados no mercado interno. Durante encontro com analistas para apresentar os resultados financeiros de 2025, Magda afirmou que a empresa ainda tenta entender se o atual movimento de alta é apenas um pico momentâneo ou o início de uma tendência mais consistente.

A declaração ocorre em meio à escalada do conflito no Oriente Médio, que impulsionou o preço do petróleo Brent. Nesta sexta-feira, a cotação superou os US$ 90 por barril pela primeira vez desde abril de 2024.

Com essa valorização, aumentou a diferença entre os preços praticados pela Petrobras no Brasil e a chamada paridade de importação, acompanhada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Na abertura do mercado, o diesel vendido pela estatal estava R$ 2,04 por litro abaixo da referência internacional, enquanto a gasolina apresentava defasagem de R$ 0,69 por litro.

Petrobras rejeita repasses automáticos

Magda Chambriard também voltou a defender a política comercial atual da Petrobras, que evita repassar automaticamente as oscilações do mercado internacional para os consumidores brasileiros.

Segundo ela, o modelo adotado em períodos anteriores, quando os preços internos eram diretamente atrelados às cotações internacionais e à variação do câmbio, provocava grande instabilidade no mercado doméstico. Em entrevista coletiva concedida na tarde de sexta-feira, a executiva criticou esse formato e afirmou que a política de repasses imediatos de aumentos do petróleo ficou no passado.

Na avaliação da presidente, essa estratégia gerou insegurança no mercado e beneficiou apenas grandes importadores de combustíveis, sem trazer vantagens para a sociedade ou para a própria Petrobras.

A atual gestão defende uma abordagem mais cautelosa, com o objetivo de amortecer impactos externos e evitar que choques geopolíticos se traduzam automaticamente em aumento de preços para consumidores e setores produtivos no país.

Ainda assim, Magda reconheceu que os valores poderão ser revistos caso a valorização do petróleo se mostre persistente. No entanto, ela reforçou que, no momento, ainda não há clareza suficiente sobre essa tendência.

Defasagem cresce e mercado privado reage

Enquanto a Petrobras adota uma postura mais cautelosa, outros agentes do setor já começaram a reajustar seus preços.

Importadores e refinarias privadas vêm repassando o aumento dos custos internacionais aos postos de combustíveis. A Refinaria de Mataripe, considerada a maior refinaria privada do país, já realizou dois aumentos no diesel e um na gasolina desde o agravamento do conflito no Oriente Médio.

Esse movimento evidencia uma diferença de estratégia entre a estatal e os demais fornecedores do mercado. Empresas privadas tendem a responder mais rapidamente às variações de custos no exterior, enquanto a Petrobras afirma buscar uma análise mais ampla do cenário antes de promover mudanças.

Monitoramento diário do mercado

O diretor de Comercialização e Logística da Petrobras, Claudio Schlosser, afirmou que a empresa acompanha diariamente a evolução do mercado por meio de relatórios técnicos. Esses documentos analisam fatores como o comportamento do preço do petróleo, a cotação do dólar e os valores praticados por concorrentes no país.

Segundo o executivo, a companhia monitora o cenário com atenção antes de tomar qualquer decisão. Na avaliação atual da empresa, o contexto ainda se mostra relativamente favorável à Petrobras.

Schlosser explicou que a alta do petróleo ampliou as margens obtidas com exportações da companhia, o que ajuda a compensar parte das pressões externas.

Esse fator ganha relevância porque a Petrobras registrou, em 2025, um recorde de vendas externas. Ao longo do ano, foram exportados cerca de 765 mil barris de petróleo por dia, consolidando a estatal como uma grande exportadora no mercado internacional e garantindo maior capacidade financeira em momentos de valorização do barril.

Impactos logísticos e Estreito de Hormuz

Outro ponto de preocupação no mercado global é o possível impacto logístico decorrente do fechamento do Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o transporte mundial de petróleo.

De acordo com Schlosser, a Petrobras se encontra relativamente protegida diante desse cenário. Cerca de 30% da frota de petroleiros da companhia opera sob contratos de longo prazo, o que reduz a exposição imediata ao aumento dos custos de frete.

Além disso, a empresa continua recebendo petróleo leve da Arábia Saudita por rotas alternativas ao estreito.

O diretor também afirmou que a companhia mantém níveis elevados de estoque, o que contribui para garantir segurança operacional mesmo diante de possíveis turbulências no mercado internacional.

Lucro bilionário em 2025

A discussão sobre combustíveis ocorreu no mesmo dia em que a Petrobras detalhou seus resultados financeiros referentes a 2025.

A companhia registrou lucro de R$ 110,1 bilhões no período, um crescimento de 201% em relação ao ano anterior. Parte desse avanço também se explica pela base de comparação mais baixa, já que o resultado anterior havia sido afetado por efeitos contábeis ligados à desvalorização do real.

Além do lucro expressivo, a empresa anunciou a distribuição de R$ 8,1 bilhões em dividendos aos acionistas. No total, os repasses referentes ao desempenho de 2025 somaram R$ 45,2 bilhões.

No entanto, a companhia optou por limitar o pagamento ao valor mínimo previsto em sua política de dividendos, sem realizar distribuição extraordinária.

Prioridade será ampliar investimentos

O diretor financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo, afirmou que a empresa também não prevê pagamento de dividendos extraordinários em 2026, mesmo com a valorização recente do petróleo.

Segundo ele, a prioridade da atual gestão é ampliar os investimentos da companhia, fortalecendo projetos estratégicos e garantindo crescimento sustentável no longo prazo.

Essa diretriz indica uma mudança em relação a períodos anteriores, quando a remuneração aos acionistas dominava o debate sobre a gestão da estatal.

Nesse contexto, tanto a decisão de evitar reajustes imediatos nos combustíveis quanto a escolha de não ampliar dividendos extraordinários seguem a mesma lógica: preservar a estabilidade da empresa, ampliar investimentos e evitar que oscilações externas sejam automaticamente transferidas para a economia brasileira.

Com o petróleo em alta e o cenário geopolítico ainda incerto, a Petrobras afirmou que continuará acompanhando os movimentos do mercado internacional antes de tomar qualquer decisão sobre preços no país. Por enquanto, a orientação da companhia é evitar reações apressadas diante da volatilidade global.