Petrobras “amarrada” e dependência de combustíveis importados expõem fragilidade energética do Brasil, dizem especialistas

Sem fortalecer sua capacidade interna e retomar instrumentos de intervenção, o Brasil seguirá exposto à volatilidade internacional

O geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor da Petrobras e responsável pela descoberta do pré-sal, afirmou que a estatal perdeu capacidade de atuar alinhada ao interesse público após mudanças legais e institucionais implementadas nos últimos anos. Segundo ele, a Petrobras passou a operar sob regras que limitam a influência direta do governo e reduzem seu papel estratégico na política energética brasileira.

Em entrevista ao canal Tutaméia, Estrella criticou a perda de controle estatal sobre a Petrobras e outras empresas públicas. Para ele, o atual modelo de governança diminuiu a autonomia do Estado para orientar investimentos, definir prioridades e utilizar as estatais como instrumentos de desenvolvimento nacional. “O governo não tem mais liberdade para gerir as empresas de acordo com os interesses do país”, afirmou.

Petrobras sob pressão do mercado financeiro

Na avaliação de Estrella, as mudanças na legislação das estatais e na governança corporativa alteraram profundamente o funcionamento interno da Petrobras. O geólogo argumenta que a empresa deixou de ser um agente estratégico da soberania energética para operar sob lógica de mercado, priorizando retorno financeiro e distribuição de dividendos.

Ele também aponta que a ampliação da participação de investidores privados e estrangeiros intensificou a pressão por rentabilidade imediata, reduzindo o foco em planejamento de longo prazo. “Transformaram a Petrobras em um fundo de investimento voltado ao lucro máximo”, criticou.

Estrella defende a revisão do marco legal e a retomada do controle estatal mais direto sobre a companhia. Para ele, energia é um setor estratégico e não pode ser guiado exclusivamente por critérios de mercado.

Falta de refino amplia dependência e encarece combustíveis

A análise do economista José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, reforça outro ponto central do debate: a vulnerabilidade do Brasil na produção de derivados de petróleo.

Segundo Gabrielli, o país não enfrenta escassez de petróleo bruto — ao contrário, exporta mais do que consome —, mas sofre com a baixa capacidade de refino, o que obriga a importação de diesel, gasolina e gás de cozinha. “O problema do Brasil não é o petróleo. É o refino”, afirmou.

De acordo com ele, essa dependência faz com que os preços internos reajam rapidamente às oscilações do mercado internacional, especialmente em momentos de crise geopolítica e alta do barril.

Por que os combustíveis sobem rápido no Brasil

Gabrielli explica que, sem capacidade suficiente de refino, o país perde instrumentos para amortecer choques externos. Na prática, isso significa que aumentos internacionais são repassados quase imediatamente ao consumidor.

Ele destaca que, se o Brasil tivesse investido mais em refinarias no passado, o impacto sobre os preços seria menor e mais gradual. “Nós exportamos petróleo, mas precisamos importar diesel, gasolina e gás. Isso nos deixa vulneráveis”, disse.

Privatizações reduziram poder de intervenção

Outro fator apontado pelo ex-presidente da Petrobras é a perda de instrumentos de atuação direta no mercado. A privatização da BR Distribuidora, por exemplo, retirou da estatal a capacidade de influenciar preços e margens na ponta final.

Sem uma distribuidora própria, a Petrobras passou a vender apenas para empresas privadas, reduzindo sua capacidade de estabilizar o mercado em momentos de crise. “A Petrobras não vende mais diretamente ao consumidor. Isso limita sua atuação”, explicou.

Gabrielli também alerta para o comportamento antecipado do mercado, que frequentemente reajusta preços antes mesmo do aumento efetivo dos custos, ampliando margens de lucro em cenários de incerteza.

Limites dos biocombustíveis e desafios futuros

Apesar da relevância dos biocombustíveis, Gabrielli avalia que eles não são capazes de resolver o problema no curto prazo. O Brasil já opera com níveis elevados de mistura de etanol na gasolina e biodiesel no diesel, próximos dos limites técnicos. “Nenhum país do mundo tem níveis de mistura como o Brasil. Estamos perto do limite”, afirmou.

Segurança energética em risco

Tanto Estrella quanto Gabrielli convergem em um ponto central: o Brasil enfrenta hoje uma fragilidade estrutural em sua política energética.

Enquanto a Petrobras opera sob maior influência do mercado financeiro, o país permanece dependente da importação de derivados — combinação que, segundo os especialistas, reduz a capacidade do Estado de reagir a crises e proteger o consumidor.

Para eles, o debate sobre combustíveis vai além da variação do preço do petróleo e envolve decisões estratégicas sobre refino, regulação e papel das estatais.

A conclusão é direta: sem fortalecer sua capacidade interna e retomar instrumentos de intervenção, o Brasil seguirá exposto à volatilidade internacional — mesmo sendo um dos grandes produtores de petróleo do mundo.