Paulo Vieira entrevista a filha de Lampião e Maria Bonita - Expedita Ferreira

Expedita compartilhou lembranças, traumas e as curiosidades que cercam a sua origem e a herança simbólica de ser descendente direta do casal mais emblemático do cangaço nordestino

Em entrevista ao humorista e comunicador Paulo Vieira, Expedita Ferreira Nunes revisitou memórias que atravessam quase um século da história brasileira. Única filha reconhecida de Lampião com Maria Bonita, Expedita compartilhou lembranças, traumas e as curiosidades que cercam a sua origem e a herança simbólica de ser descendente direta do casal mais emblemático do cangaço nordestino.

Nascida em 13 de setembro de 1932, no município de Porto da Folha, em Sergipe, Expedita tinha apenas cinco anos quando os pais foram mortos numa emboscada policial. Após a tragédia, foi criada por aliados do bando, Manuel Severo e Aurora, até ser localizada por um juiz de menores, que a transferiu aos cuidados de seu tio João Ferreira. Passou a infância na fazenda da avó, longe dos holofotes e da memória oficial do cangaço. Em 1947, casou-se com Manoel Messias Nunes Neto e se mudou para Aracaju, onde construiu uma vida como dona de casa e mãe de quatro filhos: Iza, Gleuse, Dejair e Vera. Esta última tornou-se socióloga e especialista na história do próprio avô, Lampião.

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Expedita conta que cresceu em meio ao silêncio. Sua família evitava falar sobre Lampião e Maria Bonita, e foi apenas em 1969, ao ser convidada pela escritora Maria Matta Machado para o lançamento do livro As Táticas de Guerra dos Cangaceiros, em São Paulo, que teve contato direto com a história dos pais. Na ocasião, conheceu antigos companheiros do bando, como Sila, Sereno, Dadá, Balão e Pitombeira. O sobrenome “Ferreira” só foi incluído em sua certidão de nascimento em 2016, reforçando simbolicamente o vínculo com a herança histórica de Lampião.

A condição de filha única reconhecida não a isentou de disputas familiares e públicas. Ao longo dos anos, Expedita precisou lidar com supostos descendentes de Lampião, como o caso de João Ferreira Batista, conhecido como João Peitudo. Ele alegava ser filho de Lampião, nascido em 1938 e deixado aos cuidados de Aurora da Conceição. Expedita chegou a fazer dois testes de DNA nos anos 1990 para verificar o parentesco: o primeiro, em 1992, foi inconclusivo; o segundo, realizado com parentes de Maria Bonita e de Lampião, teve resultado negativo. João Peitudo faleceu em 2000, ainda reivindicando a condição de herdeiro.


Em 1996, uma nova teoria conspiratória voltou a abalar a história: o fotógrafo José Geraldo Aguiar afirmou que Lampião e Maria Bonita teriam sobrevivido à emboscada e vivido sob identidades falsas. Expedita foi procurada para fornecer novo exame de DNA, que poderia comprovar a identidade de um suposto Lampião vivo, rebatizado como Antônio Maria da Conceição. Ela se recusou, defendendo o legado do pai: “O meu pai é um mito. O que querem agora é acabar com a imagem e o mito que foi esse homem”, afirmou.

Hoje, aos mais de 90 anos, Expedita é símbolo da travessia entre a história oficial e a memória viva do cangaço. Sua trajetória — marcada por silêncios, reencontros e disputas — ajuda a manter aceso o debate sobre a identidade e o legado de um dos personagens mais controversos e fascinantes do Brasil profundo.