O retorno envergonhado: o ato que prende Joel ao naufrágio de Ciro

A oposição apostou suas fichas em uma chapa que carrega, na cabeceira, o nome mais tóxico do noticiário nacional

Há gestos que dizem mais que discursos. Ontem, Joel Rodrigues escolheu um — e o escolheu no pior momento possível. Enquanto o senador Ciro Nogueira figura como alvo formal da maior investigação financeira da história recente do país, seu pré-candidato a governador subiu ao palanque para abraçá-lo publicamente. Não foi um aceno discreto. Foi um ato. E atos, em política, têm dono e têm preço.

Convém lembrar o terreno em que esse abraço foi dado. Em 7 de maio, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero e colocou Ciro Nogueira na condição de investigado por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e tráfico de influência. A acusação não é vaga: a PF sustenta que a emenda que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — providencial para um banco que afundava — teria sido redigida pela assessoria do próprio Banco Master, entregue em envelope na casa do senador e reproduzida por ele palavra por palavra. O Supremo autorizou o bloqueio de quase R$ 19 milhões em bens. O irmão do senador também virou alvo. O pano de fundo é um rombo superior a R$ 50 bilhões.

Ciro nega tudo. Diz-se vítima de perseguição política em ano eleitoral, e tem o direito de se defender: não há condenação, e investigação não é sentença. Esse é o devido contraditório, e ele está registrado aqui. Mas há uma frase do próprio senador que voltou a circular esta semana e que pesa mais que qualquer nota de defesa. Em março, ao lançar a pré-candidatura de Joel, Ciro disse que deixaria o mandato se fosse comprovada qualquer irregularidade. Naquele momento, era retórica barata de quem se sentia intocável. Hoje, com a PF anexando mensagens e o STF autorizando buscas, virou uma promessa que o assombra.

E é exatamente aí que o gesto de Joel se torna revelador. Porque enquanto ele abraçava o padrinho, o resto do grupo fazia a conta inversa. No interior, prefeitos e deputados que até semanas atrás disputavam lugar no palanque de Joel sumiram. A imprensa local já noticiou a “solidão política” do pré-candidato — o esvaziamento dos aliados que temem colar a própria imagem a um grupo sob a mira da Polícia Federal e do Supremo. Os caciques do interior estão lendo o cenário e recuando. Joel leu o mesmo cenário e avançou.

Durante o encontro organizado na zona norte de Teresina, que inclusive virou assunto pela baixa presença de público, Joel soltou: “Ao lado do nosso grande líder, Ciro Nogueira”, enfatizando que está do lado do padrinho e não abre mão.

A pergunta que fica não é sobre lealdade. Lealdade é virtude quando custa pouco e se chama gratidão; quando custa caro e se faz contra a evidência, tem outro nome. A pergunta é estratégica: o que Joel ganha amarrando o próprio futuro ao destino judicial de um investigado? Ele não está apenas apoiando Ciro. Está nacionalizando a própria candidatura no pior eixo possível — o do escândalo —, transformando cada nova fase da Compliance Zero em uma manchete sobre si mesmo. Cada avanço da PF contra o padrinho passa a ser, daqui para frente, um problema do afilhado.

Há quem chame isso de coragem. É mais provável que seja cálculo de quem não tem alternativa: sem a estrutura de Ciro, Joel é um ex-prefeito de Floriano sem palanque próprio. O abraço de ontem não foi escolha entre dignidade e fidelidade. Foi a confissão de que, sem o padrinho investigado, a candidatura não se sustenta de pé.

O eleitor piauiense vai às urnas em outubro. Entre lá e cá, a oposição apostou suas fichas em uma chapa que carrega, na cabeceira, o nome mais tóxico do noticiário nacional — e em um pré-candidato que, em vez de tomar distância, fez questão de se fotografar ao lado dele. Não é retorno triunfal. É retorno envergonhado. E quem aplaudiu o retorno terá que responder, junto, por tudo que vier depois.