Descendentes de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, participaram em dezembro de 2024 de uma cerimônia simbólica na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) para marcar a entrega dos crânios do casal ao Museu de Arte Sacra de São Paulo. Mortos a tiros e decapitados em 1938, na Gruta de Angico, na divisa de Sergipe e Alagoas, os dois tiveram as cabeças transportadas e mantidas por décadas em condições precárias. Com informações do G1 e da Faculdade de Medicina da USP
Os restos mortais chegaram ao Departamento de Patologia da FMUSP em 2021, onde passaram por três anos e meio de estudos, reconstituição e reconstrução em 3D. Entre os presentes na solenidade estavam Expedita Ferreira Nunes, única filha do casal, hoje com 92 anos, e a bisneta Gleuse Ferreira Nunes, que representa a família em iniciativas ligadas à preservação da memória dos dois.
Segundo a família, os crânios passaram por um longo e conturbado percurso. De 1944 a 1969, ficaram expostos no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador. Em 1969, foram sepultados no Cemitério Quinta dos Lázaros, mas no início dos anos 2000 as netas foram alertadas sobre possíveis mudanças no cemitério e o risco de extravio. Os ossos foram então retirados e guardados pela família em Aracaju, até seguirem para análise na USP. “Era segredo de família”, lembrou Expedita. “Guardava em casa como se guarda uma roupa ou um sapato.”
O trabalho de reconstituição foi descrito pelos especialistas como meticuloso e desafiador. O crânio de Maria Bonita estava quase intacto, mas o de Lampião chegou em estado de extrema fragmentação. “O do meu bisavô era um monte de caquinhos. Parecia coco seco sem a carne”, recorda Gleuse. A análise revelou marcas evidentes da decapitação, fraturas provocadas antes e depois da morte e uma saúde bucal bastante comprometida.
De acordo com o historiador e doutorando José Guilherme Veras Closs, não restam dúvidas sobre a autenticidade dos restos mortais, ainda que não tenha sido possível extrair DNA devido à deterioração causada por manipulações e métodos de conservação inadequados, como imersão em querosene e exposição ao sol. “A certeza é muito forte e bem justificada pelas evidências históricas e científicas”, afirmou.
Closs defende que o debate sobre Lampião e Maria Bonita deve ir além da imagem de heróis ou vilões. “O cuidado com o remanescente humano tem que ser igual ao cuidado por um ser humano vivo”, disse.
A bisneta Gleuse informou que a família planeja construir, em até três anos, um museu para abrigar parte do acervo ligado ao casal. “Já temos o terreno e estamos no desenvolvimento do projeto”, revelou.
Morto de Angicos Lampião, Maria Bonita e bando tiveram cabeças decapitadas e expostas e praça pública
Após 87 anos da morte, o casal Lampião e Maria Bonita, continua gerando notícias e histórias