O presente só é possível graças ao alicerce do passado

O presente não nasce do nada: ele é herança, é chão batido, é pegada de quem veio antes

Em 2010, meu irmão Zé me fez uma pergunta que atravessou o tempo: “Oscar, você ainda se lembra de papai?” A inquietação era justa. Já haviam se passado 33 anos desde a partida de João Manoel de Barros, nosso pai.  Quando ele nos deixou (25/04/1977), eu tinha apenas 14 anos. Dos primeiros anos de vida, convivi diretamente com ele em apenas quatro. Os dez seguintes foram feitos de encontros de férias, de retornos curtos à casa paterna. A lembrança que ficou, porém, é grande demais, inversamente proporcional ao pouco tempo de convivência.

São lembranças que, invariavelmente, se fazem presente. Ou por encarar seus objetos que guardo quase que no meio de minha casa: rádios, anca dágua, parafuso de prensa de mandioca, prato que servia de medida comercial em outros tempos; ou ao ouvir músicas rurais.

Motivado pela pergunta do Zé, escrevi: João Manoel de Barros nasceu em 1913. Lá nos interiores da região de Picos. Homem da roça. Foi na roça que trabalhou. Magro, alto, pele marcada pelo sol. Plantou arroz, feijão, milho, mandioca, cana. Criou gado, ovinos, caprinos. Deu conta da subsistência. Sério, sisudo não! Amigo, companheiro. Boa conversa e para acompanhá-la um café, daqueles que vem com polme no fundo da xícara, e, um cigarro com o fumo amassado na palma da mão, preparado ali mesmo, durante a palestra. O fumo, a faquinha e o papel de cigarro eram acessórios que carregava ou estavam sempre por perto...

O restante da escrita está aqui: Lembranças de um pai

O tempo passou. Dia 25 de abril, sempre será lembrança e saudade. Sempre será ausência. Em 2010, diante da pergunta de Zé, percebi que lembrar não era problema. O que sobra, em abundância, é a saudade.

Agora, neste momento, ouço Teixeirinha cantar “Querência Amada”, “Velho Casarão” e “Tropeiro Velho”. Sinto que nascer no meio rural é um elo universal. Seja no Piauí ou no Rio Grande do Sul, as raízes são as mesmas: a terra, a luta política, a família, o pai como referência. A música me transporta, inevitavelmente, para os poucos — mas intensos — momentos com meu pai.

E essa semana, entrevistando o vice-prefeito de Dom Inocêncio, Marcos Damasceno, ouvi dele uma frase que parece costurar todas essas memórias: “O presente só foi possível graças ao alicerce do passado. Uma geração conta com os caminhos abertos por outra geração. E gerações mais antigas ainda clareiam caminhos.”

É isso. Sem olhar para trás, não se enxerga o agora. O presente não nasce do nada: ele é herança, é chão batido, é pegada de quem veio antes.