O duro desabafo de Erika Hilton expõe uma velha ferida dos partidos brasileiros

Ela cobra transparência e acusa PSOL de inviabilizar candidaturas competitivas

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) tornou pública, por meio das redes sociais, uma forte crítica à direção nacional de seu partido em razão da distribuição dos recursos eleitorais para as eleições de 2026. Segundo a parlamentar, acordos firmados com lideranças que permaneceram na legenda para ajudar o PSOL a superar a cláusula de barreira e ampliar sua bancada estariam sendo descumpridos. O centro da disputa envolve os critérios adotados para a divisão do fundo partidário e do fundo eleitoral, instrumentos essenciais para financiar campanhas em um país marcado por profundas desigualdades de acesso à estrutura política.

No longo texto publicado, Hilton afirma que pré-candidaturas com comprovada densidade eleitoral estariam recebendo tratamento inferior ao destinado a nomes recém-chegados ao partido ou ligados aos grupos que hoje controlam a máquina partidária. A deputada também acusa a direção do PSOL de enfraquecer mecanismos internos voltados à promoção da participação de mulheres, negros, pessoas trans e pessoas com deficiência, tema que tem sido objeto de debate crescente em diversas legendas brasileiras.

Embora a crise tenha ganhado visibilidade nacional em razão da contundência das declarações de Erika Hilton, o debate sobre a distribuição dos recursos partidários não é exclusividade do PSOL. Em diferentes partidos de esquerda, inclusive no PT, lideranças regionais e parlamentares frequentemente relatam insatisfações com os critérios utilizados para a definição de verbas, prioridades eleitorais e apoio às candidaturas. A diferença é que, até o momento, essas divergências costumam permanecer restritas às instâncias internas ou aos bastidores da política. No caso do PSOL, a manifestação pública de uma das principais lideranças nacionais da legenda transformou o tema em uma discussão aberta sobre democracia interna, representatividade e estratégia eleitoral. Veja o texto de Erika Hilton: 

Simplesmente chocada e decepcionada.  

Pra mim, vocês sabem, a política real se faz nas ruas, nas redes, com transparência, papo reto e propósito. Não se faz escondendo os problemas debaixo do tapete ou com tentativas de sabotagem.  Eu e muitas lideranças decidimos ficar no @PSOL50  para ajudar o partido a superar a cláusula de barreira, porque nossa responsabilidade nestas eleições é gigante: dar nosso melhor, tudo de nós, para reeleger o presidente Lula e garantir uma bancada de esquerda mais forte, maior, para sustentar o governo e disputar a sociedade. Mas, para isso, o PSOL precisa cumprir os acordos que fez conosco. E não está cumprindo. Está rasgando nossos combinados e praticamente nos inviabilizando. Tenho um orgulho imenso de ter ajudado a levar a luta pelo fim da escala 6x1 para o Brasil inteiro. As ruas estão do nosso lado. Mas fazer campanha no nosso país não é igual para todos. Sou uma deputada negra e travesti. Para viajar São Paulo, maior estado do país, puxando votos, preciso de uma logística imensa e de um esquema de segurança fortíssimo. Nossos corpos correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar, com o risco de inviabilizar nossa pré candidatura à reeleição, rebaixar o máximo potencial dos nossos votos… e colocar em risco nossa integridade física. É um absurdo que a direção partidária feche os olhos para essa realidade. Hoje, Juliano Medeiros @julianopsol , presidente da Federação PSOL-Rede, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. @ManuelaDavila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro. Respeito a trajetória deles e adoraria vê-los eleitos, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios… A inteligência política passou longe. É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL. Tanto é assim que, comandado por @PaulaCoradi, presidenta nacional, o PSOL simplesmente desmontou a sua política nacional de inclusão que garantia repasses nacionais justos com ajustes por gênero, raça e para pessoas com deficiência (PCD), exatamente no momento em que o próprio Tribunal Eleitoral reconhece a importância histórica e a necessidade dessa política. É um retrocesso inaceitável. E não é só comigo. No Rio de Janeiro, lideranças gigantes e populares como @RenataSouzaRii e @RickAzzevedo sofrem do mesmo mal. Igualmente @CarlosGiannazi em SP. O partido ignorou e subestimou o Rick na última eleição, ele foi para a rua, foi o mais votado, enquanto o PSOL encolheu, em grande parte pela má distribuição dos seus recursos sob critério que são políticos. E agora o PSOL está prestes a repetir exatamente o mesmo erro com ele! Ninguém quer tirar o básico ou negar importância de quem está nas suas primeiras campanhas. O que não podemos aceitar é a falta de transparência e o suicídio político de sufocar quem tem a força popular para garantir a sobrevivência do partido. Nós ficamos no PSOL para superar a cláusula de barreira e eleger bancadas fortes. Agora, exigimos que a direção cumpra a sua palavra.