O direito ao tempo: por que o fim da escala 6x1 não é absurdo, é avanço

Trabalho, descanso e dignidade em debate no Brasil contemporâneo

Por Rodrigo Cavalcante, diretor-geral do INTERPI

Em 2009, quando decidi prestar concurso público, havia muitos fatores em jogo — estabilidade, carreira, remuneração. Mas, sendo honesto, um dos grandes atrativos era simples: ter o final de semana livre. Dois dias para reorganizar a vida, descansar, estudar ou simplesmente existir para além do trabalho.

Dezessete anos depois, essa lembrança volta com força diante do debate sobre o fim da escala 6x1. E confesso: causa estranhamento que, em pleno 2026, ainda haja quem trate essa pauta como um absurdo. O Brasil de hoje não é o mesmo de 2009. O país cresceu, o Produto Interno Bruto é significativamente maior, e as formas de produzir e trabalhar mudaram. Mas, curiosamente, parte da mentalidade sobre o trabalho parece presa ao passado.

Enquanto isso, o mundo segue em outra direção. Países como Alemanha, Holanda e Reino Unido vêm testando jornadas reduzidas — não como concessão, mas como estratégia. Os resultados apontam ganhos consistentes em produtividade, melhora na saúde mental e aumento da qualidade de vida. A discussão global deixou de ser sobre trabalhar mais horas e passou a ser sobre trabalhar melhor.

É preciso desfazer um equívoco recorrente: reduzir a jornada não significa, necessariamente, produzir menos. Ao contrário. Dar às pessoas mais tempo livre pode ampliar suas possibilidades. Muitos utilizam esse tempo para estudar, empreender, desenvolver novas habilidades ou complementar renda. Trata-se, na prática, de um investimento indireto em capital humano — algo que qualquer economia moderna deveria incentivar.

No meu caso, os dois dias de descanso sempre fizeram diferença concreta. E isso não significa inatividade. Em muitos desses dias, por decisão própria — e isso faz toda a diferença —, sigo trabalhando, estudando ou produzindo. A diferença está na autonomia. Trabalhar por escolha não é o mesmo que trabalhar por imposição.

Defender o fim da escala 6x1 não é defender o ócio improdutivo, como alguns tentam caricaturar. É defender um modelo de sociedade mais equilibrado, em que o trabalho não engula a vida. É reconhecer que descanso também é parte da produtividade e que dignidade não pode ser tratada como privilégio.

Não desejo nada além disso: que mais pessoas tenham a possibilidade real de organizar seu tempo, cuidar de si, da família e do próprio futuro. Por isso, apoio o fim da escala 6 por 1 — e reconheço a importância e a coragem de quem insiste em colocar esse tema no centro do debate público.