O chororô dos bolsonaristas neste 7 de setembro

Entre lágrimas, ataques e teorias de perseguição, os atos de 7 de Setembro reforçaram a estratégia de vitimização que sustenta a base bolsonarista

Os atos bolsonaristas deste domingo (7), realizados em Copacabana e na Avenida Paulista, transformaram o feriado da Independência em palanque político marcado por ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), pedidos de anistia aos golpistas do 8 de janeiro e tentativas de manter Jair Bolsonaro no centro da cena mesmo ausente, já que cumpre prisão domiciliar.

Em Copacabana, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou o julgamento do pai no STF como uma “segunda facada”, comparando-o ao atentado de 2018 em Juiz de Fora. Usando uma camisa com o número 2026, ele afirmou esperar ver o ex-presidente novamente candidato e chamou o processo conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes de “farsa” e “teatro” para barrar a volta de Bolsonaro à política. Em tom agressivo, atacou Moraes com ofensas pessoais e prometeu apresentar um projeto de anistia “ampla e irrestrita”, incluindo manifestantes e lideranças acusadas de envolvimento no golpe frustrado.

O ato carioca foi organizado por Flávio e pelo pastor Silas Malafaia, reunindo milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo na orla. Entre os presentes estavam o governador do Rio, Cláudio Castro, e deputados aliados como Alexandre Ramagem, Eduardo Pazuello e Hélio Lopes. O evento começou com a execução do hino nacional e se transformou rapidamente em uma plataforma de ataques às instituições.

Na Avenida Paulista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou discurso semelhante. Ele acusou Moraes de coagir delações, classificou o ministro como “ditador” e questionou a validade do julgamento dos envolvidos no 8 de janeiro. Disse que Bolsonaro segue sendo “a maior liderança da direita” e cobrou do Congresso a aprovação de uma anistia geral. Também exigiu a devolução do passaporte de Malafaia, apreendido pela Polícia Federal, e afirmou que “não há Independência sem liberdade”, insinuando que o Brasil estaria sob uma “ditadura judicial”.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi a figura mais aguardada na Paulista. Chorando, acusou o STF de agir como “tirano” e descreveu Bolsonaro como vítima de perseguição. Ignorou o fato de o marido estar inelegível até 2030 por abuso de poder e uso da máquina pública, e ensaiou seu papel de liderança para 2026, quando parte da direita discute se ela deve ser vice de Tarcísio ou até mesmo cabeça de chapa. Michelle buscou encarnar o papel de guardiã do ex-presidente, mas seu discurso reforçou o paradoxo bolsonarista: pedir liberdade e democracia enquanto defende anistia para quem tentou derrubar o Estado de Direito.

Silas Malafaia, por sua vez, voltou a disparar contra o STF e contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de “traidor da pátria”. Reclamou da apreensão de seu passaporte, celular e cadernos pela Polícia Federal, alegando perseguição religiosa, e acusou Moraes de ser “ditador de toga”. Em tom dramático, disse viver sob uma democracia “falseada” e encerrou sua fala ao som de música lenta, dirigindo-se a Bolsonaro como mártir político.

As investigações, no entanto, apontam que Malafaia articulou com outros investigados para coagir ministros do Supremo e espalhar narrativas falsas sobre a tentativa de golpe. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram ainda críticas ao deputado Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de “estúpido” por ter apoiado nos EUA a sobretaxa de 50% imposta por Donald Trump ao Brasil.

Entre lágrimas, ataques e teorias de perseguição, os atos de 7 de Setembro reforçaram a estratégia de vitimização que sustenta a base bolsonarista. Sem Bolsonaro nos palanques, coube a seus aliados encenar resistência e tentar manter vivo um projeto político que depende, cada vez mais, de confrontar instituições e negar a realidade. Mais uma vez, a data da Independência foi usada menos para celebrar o Brasil e mais para blindar um líder condenado.