As cidades mais violentas do Brasil estão concentradas em três estados do Nordeste — Bahia, Ceará e Pernambuco — e têm em comum um fator alarmante: a presença e o confronto entre facções criminosas. É o que revela o novo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quinta-feira (24).
No topo do ranking nacional de homicídios por 100 mil habitantes está Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), com taxa de 79,9 mortes violentas. A cidade é palco de um conflito sangrento entre o Comando Vermelho (CV) e os Guardiões do Estado (GDE), duas das facções mais ativas no Ceará.
Na sequência, aparecem três municípios baianos: Jequié (77,6), Juazeiro (76,2) e Camaçari (74,8), todos com forte presença de grupos ligados ao narcotráfico. Em Pernambuco, Cabo de Santo Agostinho (73,3) e São Lourenço da Mata (73,0) completam as primeiras colocações.
A Bahia concentra o maior número de cidades na lista — cinco ao todo —, incluindo Simões Filho (71,4) e Feira de Santana (65,2). No Ceará, além de Maranguape, aparecem Caucaia (68,7) e Maracanaú (68,5), ambas também marcadas por disputas territoriais entre facções.
O relatório do FBSP aponta que a violência é potencializada pela interiorização do crime organizado, sobretudo nos municípios afastados dos grandes centros. Juazeiro (BA), por exemplo, distante mais de 500 km de Salvador, teve o maior aumento no número de mortes violentas intencionais (MVI), com crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior, totalizando 194 vítimas. O município é dominado por duas organizações: o Bonde dos Malucos (BDM) e uma dissidência conhecida como “Honda”.
Em Jequié (BA), 1 em cada 3 mortes foi provocada por ações policiais — das 131 MVI registradas em 2024, 44 ocorreram durante operações da Polícia Militar ou Civil. A cidade também figura entre os municípios com maior letalidade policial no país.
Mesmo cidades que registraram queda no número absoluto de assassinatos mantêm índices alarmantes. Camaçari reduziu em 12,1% o total de vítimas (de 272 em 2023 para 239 em 2024), mas segue entre os líderes do ranking. Feira de Santana, por sua vez, teve recuo de 6,5% nas mortes, mas permanece com taxa superior a 65 homicídios por 100 mil habitantes. Lá, a prisão de um líder do BDM em São Paulo, em junho, evidenciou a ligação da facção com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
No Ceará, a escalada da violência em Caucaia é atribuída ao embate entre três facções: GDE, Comando Vermelho e os Tudo Neutros (TDN), também chamados de Massa — grupo surgido de uma cisão no CV, conhecido pela extrema violência. Em Maracanaú, o padrão se repete, com o território disputado por CV e GDE.
No Grande Recife, a cidade de Cabo de Santo Agostinho é alvo de antigas disputas entre grupos ligados ao narcotráfico, como a Comando Litoral, anteriormente chamada de Trem Bala. Já São Lourenço da Mata, também em Pernambuco, tem sido recorrente em reportagens policiais que apontam o controle do tráfico como principal motor da violência local.