Negociação entre Brasil e EUA: o governo Lula quer ou não negociar com Donald Trump?

Veja o histórico das tratativas diplomáticas desde março de 2025

Desde que reassumiu a presidência em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva reposicionou a política externa brasileira com uma diretriz multilateral e pragmática. O Itamaraty buscou reconstruir pontes com diversas potências, inclusive com os Estados Unidos, priorizando temas como meio ambiente, direitos trabalhistas e cooperação internacional. No início, com Joe Biden na Casa Branca, houve sinais de retomada de diálogo institucional, inclusive com a criação da Parceria pela Democracia Trabalhista.

Com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, em 2024, o ambiente bilateral entre Brasília e Washington voltou a se deteriorar. O apoio de bolsonaristas à campanha de Trump, além das articulações de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca, geraram suspeitas de ingerência externa sobre o processo judicial de Jair Bolsonaro, amplificando a desconfiança por parte do governo Lula.

Esse contexto ganhou contornos mais graves nos meses seguintes. A imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, articulada sob a justificativa de “reciprocidade comercial”, foi interpretada por Brasília como uma forma de pressão política. A resposta do governo Lula foi firme, mas diplomática: reafirmou a disposição para o diálogo, mas deixou claro que não aceitará imposições.

Histórico das tratativas diplomáticas desde março de 2025

Apesar das tensões, o governo Lula nunca se fechou ao diálogo. Ao contrário, buscou se antecipar aos movimentos de Trump por meio de canais técnicos e institucionais. A seguir, os principais marcos dessas negociações:

A abordagem brasileira seguiu três eixos principais:

  1. Antecipar o diálogo por meio de mecanismos formais, como a resposta à consulta pública.

  2. Apresentar contrapropostas técnicas, com foco nos produtos agrícolas e industriais mais sensíveis.

  3. Reforçar publicamente a abertura para negociações, inclusive em fóruns internacionais.

Conforme detalhado por Haddad, o objetivo do Brasil era organizar uma pauta robusta, fundamentada no princípio da reciprocidade, sem recorrer à retaliação imediata. A ideia era pressionar por negociação política e técnica, utilizando canais institucionais e reforçando a imagem de um Brasil aberto ao comércio justo.

Ao contrário do que setores mais radicais sugerem, o governo Lula não se recusa a negociar com Donald Trump. O que o Planalto tem feito é estabelecer limites claros: o Brasil está disposto ao diálogo, mas não aceita chantagens ou pressões políticas travestidas de disputas comerciais. A interlocução com o governo americano está ativa, com propostas formais já enviadas e negociações em curso, ainda que em um cenário geopolítico tenso.

As negociações reais, portanto, continuam — travadas não por falta de interesse do Brasil, mas pelo contexto volátil, polarizado e, sobretudo, por uma postura hostil do governo Trump, que usa tarifas como instrumento de coerção política.