Desde que reassumiu a presidência em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva reposicionou a política externa brasileira com uma diretriz multilateral e pragmática. O Itamaraty buscou reconstruir pontes com diversas potências, inclusive com os Estados Unidos, priorizando temas como meio ambiente, direitos trabalhistas e cooperação internacional. No início, com Joe Biden na Casa Branca, houve sinais de retomada de diálogo institucional, inclusive com a criação da Parceria pela Democracia Trabalhista.
Com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, em 2024, o ambiente bilateral entre Brasília e Washington voltou a se deteriorar. O apoio de bolsonaristas à campanha de Trump, além das articulações de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca, geraram suspeitas de ingerência externa sobre o processo judicial de Jair Bolsonaro, amplificando a desconfiança por parte do governo Lula.
Esse contexto ganhou contornos mais graves nos meses seguintes. A imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, articulada sob a justificativa de “reciprocidade comercial”, foi interpretada por Brasília como uma forma de pressão política. A resposta do governo Lula foi firme, mas diplomática: reafirmou a disposição para o diálogo, mas deixou claro que não aceitará imposições.
Histórico das tratativas diplomáticas desde março de 2025
Apesar das tensões, o governo Lula nunca se fechou ao diálogo. Ao contrário, buscou se antecipar aos movimentos de Trump por meio de canais técnicos e institucionais. A seguir, os principais marcos dessas negociações:
20 de fevereiro de 2025 – O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) abriu uma consulta pública para debater a política tarifária da nova administração Trump. A proposta incluía a aplicação de tarifas recíprocas contra o Brasil.
11 de março de 2025 – O governo Lula respondeu formalmente à consulta. No documento enviado ao USTR, destacou que os EUA acumularam superávit comercial de US$ 160 bilhões em bens e US$ 410 bilhões em bens e serviços ao longo de 15 anos, argumentando que as novas tarifas violariam regras da OMC. O texto, no entanto, evitou ameaças de retaliação.
20 de março de 2025 – Em declaração pública, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o Brasil previa “negociações prolongadas” com os EUA. Os temas centrais incluíam etanol e açúcar, produtos-chave para ambos os mercados.
1º de abril de 2025 – Em Paris, Haddad reiterou que o Brasil seguia aberto ao diálogo, mesmo diante da expectativa de anúncio de tarifas. Alertou, porém, que qualquer retaliação sem base justificável seria considerada inaceitável.
Abril de 2025 em diante – Paralelamente, o USTR passou a identificar setores brasileiros (como automóveis, químicos e eletrônicos) que, segundo os EUA, estariam sujeitos a barreiras regulatórias e tarifas variáveis, o que, para eles, justificaria as sanções.
A abordagem brasileira seguiu três eixos principais:
Antecipar o diálogo por meio de mecanismos formais, como a resposta à consulta pública.
Apresentar contrapropostas técnicas, com foco nos produtos agrícolas e industriais mais sensíveis.
Reforçar publicamente a abertura para negociações, inclusive em fóruns internacionais.
Conforme detalhado por Haddad, o objetivo do Brasil era organizar uma pauta robusta, fundamentada no princípio da reciprocidade, sem recorrer à retaliação imediata. A ideia era pressionar por negociação política e técnica, utilizando canais institucionais e reforçando a imagem de um Brasil aberto ao comércio justo.
Ao contrário do que setores mais radicais sugerem, o governo Lula não se recusa a negociar com Donald Trump. O que o Planalto tem feito é estabelecer limites claros: o Brasil está disposto ao diálogo, mas não aceita chantagens ou pressões políticas travestidas de disputas comerciais. A interlocução com o governo americano está ativa, com propostas formais já enviadas e negociações em curso, ainda que em um cenário geopolítico tenso.
As negociações reais, portanto, continuam — travadas não por falta de interesse do Brasil, mas pelo contexto volátil, polarizado e, sobretudo, por uma postura hostil do governo Trump, que usa tarifas como instrumento de coerção política.