Desde a redemocratização do país, poucos momentos foram tão marcados pela presença ostensiva de militares na vida política quanto o período iniciado com a ascensão de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. O que parecia ser uma simples retomada da participação das Forças Armadas no debate público transformou-se, ao longo dos últimos anos, numa engrenagem marcada por suspeitas de corrupção, autoritarismo e tentativa de ruptura democrática. No centro desse aparato, estão nomes que compuseram o núcleo duro do governo Bolsonaro – generais, coronéis e capitães que assumiram postos civis sem abandonar os vícios da caserna. Um deles, talvez o mais silencioso e promissor no plano da extrema-direita, é o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Capitão reformado do Exército, Tarcísio é mais um produto da militarização do poder que marcou o bolsonarismo. A trajetória que o levou ao comando do estado mais populoso e economicamente mais relevante do Brasil começou, justamente, nas Forças Armadas. Como engenheiro militar, passou pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), acumulando experiência técnica. Mas foi no governo Bolsonaro, como ministro da Infraestrutura, que ganhou notoriedade nacional. Ainda assim, por trás da imagem de gestor eficiente, pesa a marca da fidelidade absoluta ao ex-presidente e a um projeto autoritário compartilhado por outros fardados do núcleo bolsonarista.
O histórico dos militares que se aproximaram de Bolsonaro é, no mínimo, alarmante. O general Walter Braga Netto, por exemplo, ocupou o Ministério da Casa Civil e da Defesa, além de ter sido interventor federal na segurança do Rio de Janeiro. Ele é investigado por participação na trama golpista de janeiro de 2023 e por atuar para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Seu nome aparece, inclusive, em minutas de decretos que previam a anulação das eleições.
Outro nome é o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que ficou conhecido por sua postura agressiva contra a imprensa e por discursos conspiratórios. Heleno também está sob investigação por supostamente ter conhecimento e até encorajado articulações golpistas. Durante seu tempo no governo, promoveu a militarização de diversos setores civis, abrindo as portas para centenas de militares assumirem cargos comissionados.
O general Eduardo Pazuello, por sua vez, teve papel central na gestão do Ministério da Saúde durante a pandemia de Covid-19. Sem formação na área, ficou marcado pela condução desastrosa da crise sanitária e pela omissão diante da tragédia em Manaus, quando pacientes morreram asfixiados por falta de oxigênio. Pazuello também é investigado por envolvimento em esquemas de compra irregular de vacinas e outros contratos suspeitos durante a pandemia.
Há ainda o general Luiz Eduardo Ramos, ex-chefe da Secretaria de Governo e da Casa Civil, que participou de articulações políticas do governo e tentou interferir diretamente na Polícia Federal. Seu nome aparece em diversas denúncias de interferência indevida e uso político da máquina pública. O almirante Bento Albuquerque, ex-ministro de Minas e Energia, também entrou no radar de investigações após suspeitas de ter usado voos da FAB para transportar ilegalmente joias sauditas destinadas a Bolsonaro.
Todos esses nomes integram uma estrutura montada com o intuito de aparelhar o Estado e, ao mesmo tempo, blindar o governo contra críticas, investigações e mecanismos de controle. São militares que, longe de representar os valores republicanos, se alinharam a um projeto pessoal e autoritário de poder, colocando em xeque a relação entre caserna e democracia.
Nesse contexto, a eleição de Tarcísio de Freitas para o governo de São Paulo não pode ser vista como um fato isolado. Trata-se da continuidade desse projeto militarizado, agora com aparência civilizada. Sua gestão, até o momento, tem sido marcada por episódios controversos: desde a nomeação de figuras alinhadas ao bolsonarismo radical até a tentativa de interferir no Supremo Tribunal Federal para facilitar a situação judicial de Jair Bolsonaro. A recente denúncia de que Tarcísio sugeriu a ministros do STF que autorizassem Bolsonaro a viajar aos Estados Unidos para negociar com Donald Trump – mesmo sendo réu por tentativa de golpe – reforça o alerta sobre os riscos institucionais da presença de militares na política.
A população paulista já começa a pagar um preço alto por ter confiado a gestão do estado a um nome que, apesar de técnico, carrega o DNA de um projeto golpista. Tarcísio, enquanto militar, foi treinado para obedecer e executar ordens. No governo Bolsonaro, serviu fielmente a um presidente que constantemente atacava a democracia. Agora, como governador, precisa ser lembrado de que seu cargo é civil e seu compromisso deve ser com a Constituição – não com um capitão expulso do Exército que hoje responde à Justiça.
A história recente do Brasil deixa claro: quando os militares descem do quartel para ocupar cargos de poder civil, os resultados raramente são democráticos. O caso Tarcísio é apenas mais um capítulo dessa narrativa. São Paulo tem como mudar esta história.