Não é ditadura, é justiça: ditadura foi ontem, hoje é a democracia cobrando a conta

A Justiça se move, eles alegam: "vivemos uma ditadura". Não, senhores, o Brasil não é ditadura. Vocês estão sentindo é apenas o bafo quente da Lei soprando no cangote

Durante anos, as declarações de Jair Bolsonaro e de seus aliados circularam sem freios, recheadas de absurdos travestidos de “liberdade de expressão”. Nesse período, assistiu-se ao desmonte de políticas públicas, ao desprezo pela ciência, à exaltação da violência e à devastação ambiental. O negacionismo custou milhares de vidas na pandemia, enquanto o então presidente zombava dos mortos, das vacinas e do sofrimento da população. Mas agora, quando a Justiça – ainda que tardiamente – começa a se mover, eles alegam: "vivemos uma ditadura". Tenho a obrigação de dizer: não, senhores, o Brasil não vive uma ditadura. O que vocês estão sentindo é apenas o bafo quente da Lei soprando no cangote de quem achou que nunca seria responsabilizado.

Bolsonaro não governou, desgovernou. Fez da máquina pública um instrumento de ódio, aparelhamento e sabotagem das instituições. Cometeu ilegalidades em série, afrontou a Justiça Eleitoral, desacreditou as urnas sem apresentar uma única prova. Alimentou as Forças Armadas com a ilusão de um poder perdido. Transformou generais em comissários do bolsonarismo. E por fim, tramou um golpe de Estado, onde se cogitava – em reuniões registradas, com testemunhos, provas, planos – o assassinato de Luiz Inácio Lula da Silva, de Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes.

Frustrada a tentativa, derrotado nas urnas, rejeitado por boa parte da população, Bolsonaro e seus seguidores, como Silas Malafaia e Sóstenes Cavalcante, agora gritam: "vivemos numa ditadura!". Que ironia grotesca. Quem sempre venerou os porões da ditadura militar agora se diz oprimido por um Estado que lhes concede ampla defesa, liberdade de manifestação, direito ao contraditório. Nunca antes torturador algum se preocupou com habeas corpus.

Ditadura, senhores, foi o que o Brasil viveu entre 1964 e 1985. E durante aquele período sombrio, vocês se calaram. Bolsonaro se orgulhava de seus heróis fardados: Brilhante Ustra, o torturador de mulheres grávidas. Exaltava o golpe como "revolução", defendia a repressão como método e dizia que "o erro da ditadura foi torturar e não matar".

Pois então, lembremos o que foi a ditadura que vocês veneram. Foi Rubens Paiva, deputado federal cassado, sequestrado, espancado e morto. Seu corpo nunca apareceu. Foi Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, torturado com o cano de um jipe enfiado na boca e arrastado até a morte. Foi Edson Luís, estudante secundarista, assassinado com um tiro no peito por reclamar do preço da comida no restaurante universitário. Foi Manoel Fiel Filho, operário, estrangulado em uma cela do DOI-CODI. Foi a Guerrilha do Araguaia, em que dezenas de militantes foram exterminados e desaparecidos pelo Exército. Foi Vladimir Herzog, jornalista, torturado e enforcado, em plena sede de um órgão do Estado.

Esses não foram presos com tornozeleiras. Não deram entrevistas. Não publicaram tuítes. Não escreveram manifestos. Foram silenciados. Eliminados. Esse foi o preço da discordância na ditadura que vocês tanto admiram.

Agora, diante de um processo legal, conduzido com provas, garantias e direito de defesa, vocês gritam "perseguição política"? Querem posar de mártires? Não. Vocês não são vítimas. São cúmplices. E estão sendo confrontados pela democracia que tanto tentaram destruir.

Ditadura não é um juiz aplicar a lei. Ditadura é não haver juiz. Ditadura é quando quem manda tem o poder de vida e morte – como vocês desejaram em 8 de janeiro, quando tentaram tomar o país de assalto. Aquilo, sim, foi um gesto de tirania.

A democracia brasileira é imperfeita, hesitante, por vezes frágil. Mas é ela, e não a truculência dos generais que vocês idolatram, que está lhes garantindo o direito de berrar asneiras em praça pública.

Portanto, aceitem: não é ditadura. É justiça. E o que vocês estão sentindo não é opressão. É apenas o peso – atrasado, mas inexorável – do Estado de Direito.