Na Câmara dos Deputados a baderna compensa

Um motim de caráter golpista, que tentou impor ao país a agenda de anistia e de ataque ao Supremo, resultou apenas em punições cosméticas

O motim bolsonarista que hoje resulta em punições brandas teve início na primeira semana de agosto, quando deputados e senadores de extrema direita tomaram de assalto os plenários da Câmara e do Senado. A cena, de caráter golpista, foi planejada para retardar a reabertura do Congresso Nacional, que voltava do recesso legislativo. O objetivo do grupo era claro: condicionar o retorno dos trabalhos à votação da anistia aos condenados do 8 de Janeiro e ao impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O contexto era explosivo. Jair Bolsonaro estava prestes a ser condenado pelo STF a mais de 27 anos de prisão por sua participação na tentativa de golpe de Estado. O gesto dos parlamentares bolsonaristas foi, portanto, uma ação política de intimidação e chantagem aberta contra as instituições democráticas.

A falta de pulso na condução da crise

O episódio revelou a completa falta de pulso do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que não conseguiu impor ordem diante da invasão. O constrangimento foi tamanho que o ex-presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), mesmo sem estar no comando, precisou intervir para “desarmar” a ocupação e negociar a saída dos amotinados.

O relatório indulgente do corregedor

Passado pouco mais de um mês, a resposta institucional mostrou-se pífia. Nesta sexta-feira (19), o corregedor da Câmara, deputado Diego Coronel (PSD-BA), encaminhou ao Conselho de Ética as penalidades contra os envolvidos. O resultado escancarou a complacência com a desordem: a maioria dos parlamentares recebeu apenas censura escrita, uma sanção de valor simbólico. Apenas quatro deputados foram punidos com suspensão temporária de mandato, em prazos que variam de 30 a 90 dias.

Confira como ficaram as punições:

Baderna recompensada

O saldo do episódio é cristalino: um motim de caráter golpista, que tentou impor ao país a agenda de anistia e de ataque ao Supremo, resultou apenas em punições cosméticas. Para os bolsonaristas, a lição é direta: a baderna compensa. Na Câmara, desestabilizar as instituições rende manchetes, mobiliza bases radicais e, ao final, cobra-se um preço irrisório