Investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e a cobertura da imprensa revelam um dos episódios mais graves envolvendo a segurança de pacientes em um hospital particular do Distrito Federal nos últimos anos. O caso envolve a morte de três pacientes internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Anchieta, em Taguatinga, entre os meses de novembro e dezembro de 2025, e a consequente operação policial que resultou na prisão de três profissionais de enfermagem.
Novembro de 2025 – Primeiras Ocorrências e Óbitos
- 4 de novembro de 2025: O servidor público João Clemente Pereira, de 63 anos, dá entrada na UTI do Hospital Anchieta para tratar um coágulo no cérebro.
- 17 de novembro de 2025: O quadro de João Clemente apresenta piora súbita com paradas cardíacas repetidas.
- 18 de novembro de 2025: João Clemente morre após nova parada cardíaca na UTI. Na mesma data, a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, também tem sua morte registrada na unidade.
Esses dois primeiros óbitos ocorreram em um curto intervalo de tempo e, à época, foram registrados como mortes em contexto clínico. Posteriormente, a investigação policial passaria a tratar os eventos como possíveis homicídios.
Dezembro de 2025 – Terceiro Caso
- 1º de dezembro de 2025: O carteiro Marcos Moreira, de 33 anos, internado na mesma UTI, também morre em circunstâncias que posteriormente chamarão atenção das autoridades policiais.
As investigações indicam que os três pacientes haviam recebido aplicações de substâncias intravenosas que não condiziam com os protocolos médicos usuais, incluindo a injeção de desinfetante em um dos casos.
Janeiro de 2026 – Descoberta, Prisões e Operação Anúbis
- Início de janeiro de 2026: Médicos e equipe do Hospital Anchieta começam a notar padrões atípicos nas mortes e pioras repentinas no quadro de pacientes, desencadeando uma investigação interna.
- Menos de vinte dias após as mortes serem consideradas atípicas: O hospital institui um comitê interno e reúne evidências, incluindo registros e gravações de câmeras de segurança, encaminhando tudo às autoridades competentes.
- 11 de janeiro de 2026: A Polícia Civil do Distrito Federal deflagra a Operação Anúbis. Dois dos três principais suspeitos são presos temporariamente, e mandados de busca e apreensão são cumpridos em endereços em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas (GO).
- 12 e 15 de janeiro de 2026: Novas prisões temporárias são decretadas e cumpridas. Três técnicos de enfermagem – Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos; Amanda Rodrigues de Sousa, 28 anos; e Marcela Camilly Alves da Silva, 22 anos – são detidos sob suspeita de homicídios dolosos de pacientes na UTI.
Desdobramentos da Investigação
- A PCDF trata as mortes como homicídios dolosos qualificados. Em depoimentos e investigações, o principal suspeito, Marcos Vinícius, chegou a ser confrontado com imagens das câmeras de segurança e teria confessado parte dos crimes, após a polícia identificar um padrão de aplicação de substâncias letais em pacientes estáveis, provocando paradas cardíacas.
- Relatórios preliminares indicam que o suspeito teria utilizado o sistema interno do hospital para emitir receitas falsas, preparar e aplicar substâncias não prescritas, e que as técnicas Amanda e Marcela estariam envolvidas como colaboradoras no esquema ou como testemunhas do procedimento, apesar de versões divergentes dadas no inquérito.
- Repercussão e Situação Atual
- O caso está sob segredo de Justiça, e a investigação prossegue para esclarecer a motivação dos crimes, a extensão do envolvimento dos três técnicos e identificar se há outras possíveis vítimas em unidades de saúde onde o trio tenha atuado. As técnicas acusadas foram transferidas para a Penitenciária Feminina do Distrito Federal (“Colmeia”) enquanto aguardam desdobramentos judiciais.
- O Hospital Anchieta emitiu nota oficial informando que colaborou com as autoridades desde a identificação dos fatos, demitiu os envolvidos e que tem prestado apoio às famílias das vítimas, reafirmando compromisso com a segurança dos pacientes.
Quem são as vítimas e os técnicos investigados nas mortes do Hospital Anchieta
As vítimas
João Clemente Pereira, 63 anos
Servidor público aposentado, João Clemente Pereira foi internado na UTI do Hospital Anchieta no início de novembro de 2025 para tratamento de um coágulo no cérebro. Segundo a investigação, o paciente apresentava quadro estável e não havia indicação clínica de agravamento iminente.
No dia 17 de novembro, ele sofreu sucessivas paradas cardíacas, vindo a óbito no dia seguinte. A polícia aponta que a piora repentina ocorreu após a aplicação de substâncias que não constavam na prescrição médica.
Miranilde Pereira da Silva, 75 anos
Professora aposentada, Miranilde Pereira da Silva morreu no mesmo período e na mesma unidade hospitalar. Assim como no caso anterior, os investigadores destacam que o quadro clínico não indicava risco imediato de morte.
A morte de Miranilde foi inicialmente registrada como natural, mas passou a ser reavaliada após a identificação de um padrão de atuação suspeito envolvendo profissionais da enfermagem de plantão.
Marcos Moreira, 33 anos
Carteiro, Marcos Moreira era o mais jovem entre as vítimas. Ele morreu no dia 1º de dezembro de 2025, também na UTI do Hospital Anchieta.
A Polícia Civil aponta que Marcos recebeu substâncias intravenosas incompatíveis com os protocolos médicos, o que teria provocado uma parada cardiorrespiratória. O caso reforçou a suspeita de que as mortes não eram eventos isolados.
Os técnicos de enfermagem investigados
Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos
Apontado como o principal suspeito, Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo atuava como técnico de enfermagem na UTI onde ocorreram os óbitos. A investigação indica que ele teria sido o responsável direto pela aplicação das substâncias letais.
Segundo a Polícia Civil, o técnico utilizava o sistema interno do hospital para emitir ou acessar prescrições de forma irregular e preparar medicamentos sem autorização médica. Imagens de câmeras de segurança e registros eletrônicos sustentam a suspeita de autoria direta dos crimes.
Amanda Rodrigues de Sousa, 28 anos
Também técnica de enfermagem, Amanda Rodrigues de Sousa estava de plantão em momentos decisivos relacionados às mortes investigadas.
De acordo com os investigadores, há indícios de que ela tinha conhecimento das ações irregulares e, em ao menos um dos casos, teria auxiliado na logística do procedimento. Em depoimento, apresentou versões consideradas contraditórias pela polícia.
Marcela Camilly Alves da Silva, 22 anos
A mais jovem entre os investigados, Marcela Camilly Alves da Silva também integrava a equipe de enfermagem da UTI.
A polícia apura se ela teve participação ativa nos crimes ou se atuou como facilitadora, ao permitir ou não impedir as aplicações irregulares. O inquérito aponta que Marcela presenciou procedimentos fora do protocolo e não comunicou a irregularidade.
Uma quarta técnica de enfermagem também é investigada
Uma quarta técnica de enfermagem é investigada por envolvimento na morte de três pessoas no Hospital Anchieta. A profissional seria mais uma participante dos homicídios em série de pacientes que estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Uma técnica de enfermagem de 40 anos, natural de Goiás, também responde a processo por homicídio doloso qualificado. No dia 12 de janeiro, durante a primeira fase da Operação Anúbis, a mulher foi alvo de mandado de prisão, mas, como não foi encontrada, é considerada foragida. O nome dela não foi divulgado. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) não confirmou até o momento se a quarta envolvida também será indiciada.
Situação atual
Os três técnicos foram presos temporariamente no âmbito da Operação Anúbis e respondem por homicídio doloso qualificado, crime cuja pena pode ultrapassar 30 anos de prisão. A investigação segue em andamento para apurar se há outras vítimas, além de possíveis falhas institucionais no controle de acesso a medicamentos e prescrições dentro do hospital.
O caso permanece sob forte atenção da imprensa e das autoridades sanitárias, com repercussão nacional e impacto direto no debate sobre segurança do paciente em unidades de terapia intensiva.
Delegado diz já ter explicação para mortes
O principal suspeito das mortes de três pacientes na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF), teria agido por prazer, sem motivo e sem buscar algum tipo de vantagem. Ou seja, ele seria um psicopata. Essa é a linha de investigação mais sólida da Polícia Civil do Distrito Federal. O delegado Maurício Iacozzilli, da Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa, afirmou que as evidências recolhidas até o momento indicam que Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, cometeu os crimes por satisfação pessoal, e não por outros motivos alegados inicialmente. A investigação considera que o suspeito de 24 anos pode ter influenciado as colegas, já que uma delas, com apenas 22 anos, estava em seu primeiro emprego e em período de treinamento, enquanto a outra a conhecia havia muitos anos e era sua amante. Para esclarecer a motivação exata e possíveis comunicações com outras pessoas, a polícia aguarda os resultados da perícia em celulares e computadores apreendidos. “É isso que pode amarrar melhor o porquê desses crimes”, declarou o delegado, prevendo que os laudos saiam em duas ou três semanas.
Veja mais em:
Técnicos são presos por mortes de pacientes em hospital do DF
Quem são os técnicos de enfermagem suspeitos de mortes em série em hospital do DF