O Partido Liberal (PL) exibe ao país um espetáculo de contradições que revela, ao mesmo tempo, a fragilidade moral da legenda e o esgotamento político da família Bolsonaro. À luz dos holofotes, o partido tenta vender uma imagem de força ideológica com uma campanha de filiação protagonizada por Michelle Bolsonaro e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mas, longe das câmeras, o mesmo PL move-se com frieza cirúrgica para cortar os laços materiais e políticos com o ex-presidente Jair Bolsonaro — agora condenado e cumprindo pena.
A propaganda partidária, planejada para explorar o apelo emocional e religioso do bolsonarismo, aposta no sobrenome como ativo único. Michelle aparece como embaixadora do voto conservador feminino e evangélico, enquanto Flávio se apresenta como herdeiro político do pai. A mensagem tenta sugerir continuidade e força, ignorando deliberadamente o fato de que o núcleo familiar que sustenta a campanha está mergulhado em escândalos, contradições e decisões judiciais inéditas na história republicana.
Distanciamento calculado do patriarca preso
A fachada publicitária contrasta com a dureza dos bastidores. Assim que Jair Bolsonaro iniciou o cumprimento de sua pena, o PL suspendeu suas atividades partidárias e cortou o generoso salário de cerca de R$ 40 mil mensais que o ex-presidente recebia como “presidente de honra”. O mesmo partido que lucrava eleitoralmente com sua imagem agora se apressa para apagar rastros, proteger o fundo partidário e blindar-se de eventuais sanções por financiar um político inelegível, condenado e preso em regime fechado.
A jogada — articulada por Valdemar Costa Neto — mostra que, quando o peso judicial se impõe, o discurso de lealdade vira pó. O PL, que surfou no auge do bolsonarismo, agora prefere se afastar para preservar sua estrutura e seus cofres, revelando uma “desbolsonarização” prática, ainda que envergonhada.
A família como vitrine — e o pai como estorvo
Enquanto isso, Michelle e Flávio são escalados para sustentar o mito em decomposição. Tornam-se o verniz midiático de uma legenda que tenta capitalizar a última centelha do bolsonarismo, mesmo que isso signifique expor o clã como vitrine enquanto o patriarca é descartado como custo político.
No fim, o PL exibe duas telas: na primeira, uma família inflada por propaganda tenta manter viva uma narrativa que já não encontra sustentação na realidade. Na segunda, o partido se livra, peça a peça, daquilo que ajudou a criar — deixando cada vez mais evidente que, para o PL, Bolsonaro foi útil enquanto dava votos. E descartável quando começou a dar prejuízo.