Maior mobilização militar dos EUA em 30 anos acende alerta sobre possível ataque à Venezuela

Com 10 mil soldados no Caribe, governo Trump gera preocupação regional e reação da ONU, China e Rússia

O governo de Donald Trump promoveu a maior mobilização militar dos Estados Unidos na América Latina em três décadas, acendendo um alerta internacional sobre a possibilidade de uma operação contra a Venezuela. Documentos que embasaram recentes declarações da ONU revelam temor de uma intervenção militar iminente e risco de desestabilização regional. Diplomatas descrevem o momento como um “estado de alerta máximo”.

A crise ocorre em meio à fragilidade política da América Latina e ao reconhecimento, por parte do governo Lula, de que os mecanismos de integração regional, como a Celac, perderam força para conter pressões externas.

Sob o argumento de combater o narcotráfico, os EUA deslocaram para o Caribe cerca de 10 mil soldados, muitos baseados em Porto Rico e Trinidad e Tobago. Embora insuficiente para uma invasão terrestre, o contingente pode sustentar ataques aéreos e já representa a maior movimentação militar americana na região desde a crise do Panamá.

O New York Times revelou que a CIA foi autorizada a realizar operações secretas contra Nicolás Maduro. No mesmo dia, Trump afirmou considerar ataques contra “cartéis venezuelanos”. Em resposta, Maduro pediu respeito à soberania nacional e fez um apelo pela paz: “Não queremos guerra no Caribe nem na América Latina”.

América Latina dividida

O governo brasileiro acompanha a situação “com enorme preocupação”, segundo fontes diplomáticas. Tentativas de Lula e de outros líderes regionais de aprovar uma declaração conjunta de repúdio à mobilização americana fracassaram: apenas 21 países da Celac assinaram o documento.

Argentina, Panamá, Peru, Paraguai, Jamaica e outros se recusaram a aderir, revelando um racha político. Para analistas em Brasília, os EUA atuam também em uma frente diplomática, com apoio de aliados como o Paraguai, cujo presidente, Santiago Peña, reproduziu a narrativa americana na ONU, e de setores do governo Milei, que pressionam a OEA a investigar a Venezuela em troca de recursos liberados por Washington.

Enquanto isso, a líder opositora Maria Corina Machado foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, movimento interpretado como tentativa de legitimá-la como sucessora “natural” de Maduro em caso de queda do regime.

Navios deslocados do Oriente Médio

O Pentágono redirecionou embarcações que atuavam em zonas de conflito, como o Oriente Médio e o Pacífico, para o Caribe. Entre elas, o navio anfíbio USS Iwo Jima, com 4,5 mil fuzileiros navais, e o USS Minneapolis-Saint Paul, que passou a operar na região em maio.
Segundo o Comando Sul dos EUA, as ações “enviam uma mensagem clara: estamos vigilantes e protegeremos nossos parceiros regionais”.

Até o momento, ataques americanos a embarcações suspeitas de tráfico já deixaram 27 mortos. No entanto, congressistas democratas criticam a falta de transparência do governo, e um projeto que exigia autorização formal para as operações foi bloqueado por republicanos no Senado.

Reações de Rússia e China

Moscou e Pequim, que têm interesses diretos na Venezuela, reagiram com firmeza. O embaixador russo na ONU, Vasily Nebenzya, condenou as “ameaças militares sem precedentes” e advertiu para um “erro irreparável” caso os EUA lancem um ataque direto.

“Uma operação militar americana em larga escala ameaça diretamente a paz e a segurança regional”, afirmou Nebenzya.

A China também repudiou as ações. O embaixador Fu Cong declarou que “rejeita o uso da força e a interferência estrangeira” e pediu aos EUA que atendam aos apelos internacionais por estabilidade.

Escalada acompanhada pela ONU

Relatórios da ONU confirmam o aumento da presença militar americana desde agosto, com o deslocamento de navios e caças próximos ao território venezuelano. A organização alerta que os incidentes, como o abate de embarcações e sobrevoos militares, elevaram as tensões.

Em resposta, Maduro decretou estado de emergência nacional e mobilizou 4,5 milhões de integrantes da Milícia Bolivariana. Em nota ao Conselho de Segurança, a Venezuela acusou os EUA de “promover políticas de mudança de regime” sob pretextos forjados.

O secretário-geral António Guterres pediu “contenção máxima” e ressaltou que operações antidrogas devem respeitar o direito internacional. “É imperativo que os Estados-Membros evitem ações que ameacem a paz e a segurança na região”, afirmou.