Menos de uma semana após Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) e Ciro Nogueira (PP-PI) liderarem, no Congresso Nacional, a articulação da chamada “defesa da Faria Lima”, movimento que derrubou a Medida Provisória 1303/2025, proposta pelo governo Lula para taxar apostas esportivas (bets), bilionários e bancos, o Palácio do Planalto reagiu com uma série de exonerações em massa. Mais de 370 ocupantes de cargos de segundo escalão indicados por partidos do Centrão, como PP, União Brasil, MDB, PSD e Republicanos, foram demitidos de autarquias e ministérios federais.
A ofensiva do governo é interpretada como uma resposta direta à blindagem aos setores mais ricos promovida pelas legendas que se alinharam a Tarcísio e Ciro. Segundo fontes ligadas ao Planalto, o movimento do Centrão foi entendido como uma tentativa de criar uma bomba fiscal que impacte as contas públicas em 2026 e fragilize a gestão Lula, abrindo espaço para impulsionar a candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência.
O pente-fino começou na sexta-feira (10) e teve como foco inicial os ministérios comandados por partidos que participaram da frente ampla de 2022, mas que atualmente vêm atuando em oposição. O União Brasil foi o mais atingido: 119 exonerações, incluindo dez no Palácio do Planalto, nove na Advocacia-Geral da União (AGU), dezoito no Ministério da Integração Regional, seis nos Transportes e seis no Ministério dos Povos Indígenas. A legenda, presidida por Antonio Rueda, é apontada como linha auxiliar de Ciro Nogueira (PP), e, juntas, as duas siglas formam uma federação que comanda a maior bancada da Câmara, com 109 deputados e 15 senadores.
Até o momento, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco), controlada por aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que mantém boa relação com o Planalto, ainda não foi atingida.
O segundo partido mais afetado foi o MDB, comandado por Baleia Rossi e Michel Temer, que perdeu 112 cargos. O Ministério dos Transportes, chefiado por Renan Filho (MDB-AL), sofreu 15 exonerações. As demissões também ocorreram na Presidência da República (6) e nos ministérios da Saúde (11), Gestão e Inovação (8) e Minas e Energia (7).
O PSD, liderado por Gilberto Kassab, perdeu 63 cargos, a maioria concentrada nos ministérios da Agricultura (17), comandado por Carlos Fávaro (PSD-MT), e da Pesca e Aquicultura (17), de André de Paula (PSD-PE). Também houve cortes nas pastas da Saúde (5), Integração (5) e Povos Indígenas (4).
O PP, de Ciro Nogueira, foi atingido com 48 exonerações, incluindo sete no Ministério do Esporte, comandado por André Fufuca (PP-MA). Outros cortes ocorreram na AGU (6) e nos ministérios da Saúde (5), Integração (5) e Gestão e Inovação (4).
Por fim, o Republicanos, partido ligado à Igreja Universal e presidido por Marcos Pereira, registrou cortes mais modestos. Foram 3 demissões no Ministério de Portos e Aeroportos, chefiado por Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), além de perdas nos ministérios da Integração (5), Povos Indígenas (4), Transportes (4) e Agricultura (3).
Nos bastidores, o movimento é visto como uma retaliação política calculada, sinalizando que o governo Lula pretende reavaliar alianças e reduzir a influência do Centrão sobre cargos estratégicos. Para o Planalto, a postura de Tarcísio e Ciro no Congresso representou uma quebra de confiança, e a resposta veio de forma rápida e contundente.