Por Leonardo Kakamoto, jornalista, no facebook
O núcleo duro do bolsonarismo-raiz é composto por ruralistas, militares, policiais, religiosos e militantes de extrema direita. Essa turma, somada a apoiadores conjunturais, ainda garante um tíquete para o segundo turno das eleições para Jair. Mas como parte desse eleitorado vai reagir se, durante a campanha eleitoral, perceber que o capitão não ganhará de Lula num segundo turno? Abandonará o "mito" em nome de outro nome melhor posicionado em pesquisas de segundo turno ou irá com ele até a derrota ou um golpe?
Pesquisas eleitorais, com exceção às feitas na boca da urna, são fotografias de um momento e não previsões do que deve acontecer nas eleições. Hoje, Lula venceria Bolsonaro por 56% a 31%, de acordo com o Datafolha, divulgado nesta sexta (17).
E tão ou mais importante do que a aprovação de um presidente é a sua tendência de subida ou de queda. O Datafolha mostrou que Bolsonaro conta com apenas 22% de ótimo e bom e 53% de ruim e péssimo. Desde dezembro de 2020, sua popularidade copia a renda dos brasileiros, caindo de forma consistente.
Temos razões econômicas de sobra para isso. Enquanto o auxílio emergencial foi reduzido para um piso de R$ 150 mensais, o que não compra 25% da cesta básica em São Paulo ou no Rio, segundo o Dieese, o preço do gás de cozinha, da gasolina, da energia elétrica e da comida dispararam. A população desempregada demora a diminuir, contabilizando surpreendentes 14,4 milhões. Isso sem contar a possibilidade real de apagões até dezembro devido à incompetência do governo na gestão hídrica.
Estimativas de crescimento do PIB para 2022 vão sendo recalculadas - para baixo. Algumas já apontam para menos de 1%. Junto com a inflação, que não parece que vá ceder, teremos um quadro de estagnação, com aumento de preços. O presidente, que na campanha de 2018 afirmou sonhar em fazer o Brasil voltar a ser como era há 40 anos, pode, enfim, conseguir.
O que acontecerá se ele continuar perdendo popularidade?
Chegaria o momento em que uma parte do seu público, vendo que o voto em Jair facilitaria a corrida do ex-presidente Lula rumo ao Planalto, largaria mão dele em nome de um nome com mais possibilidade de vencer o petista no segundo turno? Há espaço para um pragmatismo antilulista entre os bolsonaristas?
Bolsonaro não gosta nem de ouvir falar desse roteiro. Afinal, ele tem base social não desprezível e engajada, ao contrário da maioria dos nomes que se apresentam como a "terceira via". Base que se beneficiou de uma liberdade irrestrita para fazer e acontecer concedida nos últimos anos.
E, em meio a isso, há outra questão: o que farão os eleitores de outros candidatos de "terceira via" que não forem para o segundo turno? Votarão em Lula, mesmo sem concordar com as propostas dele em nome da democracia, ou depositarão o voto em Bolsonaro, dando vazão ao antilulismo ou antipetismo?
Entre os mais ricos (que embarcaram na campanha do capitão, em 2018, logo que Geraldo Alckimin mostrou que não decolaria), a reprovação de Bolsonaro caiu de 58% para 46%, de julho para setembro. Ao todo, 36% deles o consideram bom ou ótimo.
O apresentador Luciano Huck, presidenciável até assumir o posto que era de Fausto Silva aos domingos na TV Globo, questionado pela revista Veja em quem votaria entre Lula e Bolsonaro caso a terceira via não emplaque, afirmou: "não quero fazer essa escolha agora". Ironicamente, o título da entrevista vem de outra declaração que diz que uma "ameaça à democracia tem de nos unir acima de ideologias".
Há outras formas de responder a essa questão feita a ele. Ele não precisaria se comprometer, mas poderia deixar claro a opção por vetar um candidato que deseja destruir a República para reergue-la à sua imagem e semelhança.
Mas, afinal de contas, para muita gente ainda é uma "escolha difícil"