Lula convoca Ciro Nogueira e Rueda, enquadra os dois líderes e garante aprovação da isenção do IR e taxação dos super-ricos

Com pressão direta sobre líderes do Centrão, Lula evita manobras fiscais, garante apoio à isenção do IR e impõe derrota à base bolsonarista.

A Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade de 493 votos, o projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e institui a taxação dos super-ricos. A vitória do governo contou com atuação direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, horas antes da votação, chamou para conversa os presidentes do União Brasil, Antônio Rueda, e do Progressistas, Ciro Nogueira, um dos principais articuladores do lobby da Faria Lima contra o aumento da alíquota sobre rendimentos acima de R$ 50 mil.

A ofensiva do Planalto

Segundo apuração da revista Fórum, Lula decidiu intervir para evitar manobras do Centrão que poderiam transformar a proposta em uma armadilha fiscal contra o próprio governo. O presidente reuniu Rueda e Nogueira, líderes da federação PP-União — que detém a maior bancada da Câmara, com 109 deputados —, e exigiu que nenhuma emenda retirasse os mais ricos da base de compensação.

Entre as tentativas de alteração, estava uma emenda apresentada por Cláudio Cajado (PP-BA), aliado de Nogueira, para barrar o aumento da alíquota dos endinheirados. Outra, de autoria de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL e ligado ao pastor Silas Malafaia, buscava reduzir benefícios fiscais do governo e congelar novas reduções até 2027.

No total, 104 emendas foram protocoladas, mas todas foram derrubadas por decisão articulada entre Lula, o presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), e o relator do projeto Arthur Lira (PP-AL).

Para blindar a proposta, foi incluído um dispositivo que obriga o Executivo a enviar, em até um ano, um projeto com política nacional de atualização dos valores de isenção e de aumento da taxação.

Constrangimento no Centrão

Pressionado, o Centrão recuou e votou em peso a favor do projeto, apesar da crítica aberta da base bolsonarista ao aumento de impostos sobre os mais ricos. Lula, durante o “enquadro” a Rueda e Ciro, destacou o apoio popular às medidas e assumiu o risco da renúncia fiscal, que representará perda de R$ 25,4 bilhões na arrecadação do IR — cerca de 10% do total do tributo.

O presidente também advertiu que qualquer tentativa de barrar a isenção para 90% dos contribuintes ou de derrubar a taxação dos super-ricos teria impacto direto na disputa eleitoral de 2026, atingindo todos os parlamentares que se opusessem.

Reflexos nas negociações do Centrão

A derrota de Ciro Nogueira e sua bancada abriu outro flanco. Segundo a Fórum, o Centrão e a base bolsonarista redirecionaram suas articulações para o chamado “PL da Dosimetria”, que reduz penas em vez de conceder anistia a Jair Bolsonaro.

A proposta, costurada por Paulinho da Força (Solidariedade-SP), busca atender ao ex-presidente, que seguiria em prisão domiciliar, em troca de declarar apoio à candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao Planalto em 2026.

O acordo, porém, enfrenta resistência dos filhos de Bolsonaro, que temem perder protagonismo na chapa, especialmente diante da possibilidade de Ciro Nogueira ocupar a vaga de vice.

Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), dos Estados Unidos, desafia as orientações do pai, prolongando o impasse.

A ofensiva de Lula esvaziou a armadilha fiscal montada pelo Centrão e consolidou a aprovação de uma das principais bandeiras que o governo pretende levar à campanha da reeleição em 2026. Ao mesmo tempo, expôs divisões no campo bolsonarista e dificultou o avanço de negociações sobre a anistia de Bolsonaro, agora travestida em redução de penas.