Juliana Paes, o corpo e o etarismo: por que o Carnaval ainda cobra juventude das mulheres

Ao retornar como rainha de bateria da Viradouro aos 46 anos, atriz expõe medos, inseguranças e um debate que atravessa o Carnaval: o julgamento do corpo feminino e a pressão da idade na avenida e fora dela

Por Tati Fávoro, na Fórum

O retorno de Juliana Paes ao posto de rainha de bateria da Unidos do Viradouro, após 18 anos, vai além da festa, da nostalgia e da homenagem a Mestre Ciça. Aos 46 anos, a atriz recoloca no centro do Carnaval um tema que insiste em reaparecer a cada desfile: o etarismo e o controle social sobre o corpo das mulheres, especialmente quando elas ocupam posições de destaque.

Em entrevista ao GShow, a atriz admitiu receios relacionados à idade, ao julgamento estético e à exposição do corpo, reconhecendo que estar à frente de uma bateria significa voltar a um lugar de vitrine permanente.

“Vivemos em um mundo muito etarista. Tem essa questão de será que dou conta? Será que vão ver isso com bons olhos? Amadurecer é você ir se despedindo do mundo das aparências, desencanando. Mas estar ali na vitrine sendo uma rainha de bateria é voltar pra esse lugar onde o seu corpo vai ser visto, onde a sua entrega vai ser avaliada. Tudo isso fica misturado e aí existe essa insegurança. Será que eu estou disposta a passar por essa sabatina? Todas essas perguntas vêm na cabeça”, afirmou.

Corpo na vitrine

O incômodo não é individual. Ele revela um sistema que ainda trata o corpo feminino como objeto de avaliação pública. No Carnaval, essa lógica se intensifica: a rainha de bateria não é apenas uma figura simbólica da escola, mas um corpo que será observado, comentado, comparado e, muitas vezes, atacado. Quando esse corpo foge do ideal jovem, magro e eternamente disponível, as críticas ganham outro tom.

Juliana verbaliza algo que muitas mulheres sentem, mas poucas dizem em voz alta: o medo de envelhecer em público. O receio de “não dar conta”, de não ser bem aceita ou de virar alvo de comentários cruéis expõe o etarismo estrutural que atravessa não só o Carnaval, mas a indústria do entretenimento como um todo.

“Fico pensando o quanto a gente deixa de rebolar, de diminuir o biquíni, de ser grandona, de sensualizar porque dizem pra gente que a gente tá ficando velha. Queria muito que as mulheres olhassem para nós, mulheres de 45 mais no Carnaval, e resgatassem esse lugar da sensualidade, do desejo, mas o desejo de fazer coisas por si mesma.”

A dor de uma, a dor de muitas

Casos recentes mostram como esse julgamento é recorrente. Paolla Oliveira, uma das rainhas mais celebradas da Sapucaí, já teve seu corpo criticado durante desfiles, mesmo dentro de padrões historicamente valorizados. O episódio evidenciou que, no Carnaval, não há corpo “certo” o suficiente: sempre haverá alguém disposto a apontar excesso, falta, flacidez, celulite ou qualquer sinal de humanidade.

O discurso da maturidade, frequentemente romantizado, entra em choque com a realidade da avenida. Juliana reconhece que amadurecer significa se despedir das aparências e das cobranças externas, mas assumir novamente o posto de rainha é também retornar a um espaço onde o corpo volta a ser centro de avaliação. A diferença, agora, está na consciência — e na escolha.

Rainhas tensionam padrões

Ao lado de nomes como Viviane Araújo e Sabrina Sato, Juliana integra um grupo de mulheres com mais de 45 anos que reinam no Carnaval, tensionam padrões e ampliam representações. A permanência dessas mulheres não elimina o etarismo, mas o expõe. Elas mostram que o incômodo não está na idade, e sim na recusa em desaparecer silenciosamente.

A preparação física de Juliana reflete essa mudança de perspectiva. Mais focada em resistência, saúde mental e autocuidado do que em performance estética, ela reforça que o corpo não é apenas vitrine, mas instrumento de existência. Ainda assim, ajustes na alimentação, redução do álcool e cuidados com a pele revelam o quanto a pressão segue presente, mesmo quando há consciência crítica sobre ela.

O Carnaval costuma ser vendido como espaço de liberdade, mas essa liberdade não é distribuída igualmente. Para as mulheres, especialmente as que envelhecem sob os holofotes, ela vem condicionada a expectativas rígidas. Ao retornar à Viradouro, Juliana Paes olha de frente um sistema que insiste em dizer até quando uma mulher pode ocupar certos lugares e dá seu recado: o corpo envelhece, mas pode sambar, reinar e pertencer, ainda que incomode.