Jeffrey Epstein e João de Deus: denúncias cruzadas, documentos e a sombra da impunidade

Entre os documentos liberados, um chamou atenção ao mencionar denúncias contra o médium João de Deus, especialmente as acusações sobre supostas “fazendas de bebês” em Goiás

Jeffrey Epstein foi um financista norte-americano acusado de comandar uma rede internacional de tráfico e exploração sexual de menores; morreu em 2019, em uma prisão federal dos EUA, enquanto aguardava julgamento. João de Deus, nome religioso de João Teixeira de Faria, é um médium brasileiro condenado a centenas de anos de prisão por abusos sexuais contra dezenas de mulheres, após décadas de atuação espiritual em Abadiânia (GO).

O QUE ACONTECEU

Em janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicas 3,5 milhões de páginas relacionadas ao caso Jeffrey Epstein. Entre os documentos liberados, um e-mail datado de dezembro de 2020 chamou atenção ao mencionar explicitamente a ativista brasileira Sabrina Bittencourt e suas denúncias contra o médium João de Deus, especialmente as acusações sobre supostas “fazendas de bebês” em Goiás.

No texto, o autor — cujo nome permanece censurado — afirma que “centenas de meninas foram escravizadas ao longo de anos, viveram em fazendas em Goiás e serviram como úteros para engravidar e ter seus bebês vendidos”. O e-mail prossegue estabelecendo um paralelo direto com o Zorro Ranch, propriedade de Epstein no Novo México, apontado como um dos centros de sua rede de exploração sexual. Segundo a mensagem, Sabrina teria declarado oficialmente que Epstein lhe ofereceu dinheiro para participar de um esquema de gestação de bebês destinados ao mercado negro.

Não há, até o momento, prova de ligação direta entre João de Deus e Epstein. No entanto, o fato de as denúncias brasileiras aparecerem em documentação oficial do Departamento de Justiça indica que foram consideradas relevantes no contexto das investigações norte-americanas sobre tráfico sexual internacional. O ponto central do e-mail é a semelhança de padrões descritos: isolamento geográfico, controle de vítimas e possíveis esquemas de exploração reprodutiva.

No Brasil, João Teixeira de Faria foi condenado, em 2023, a 489 anos de prisão por crimes sexuais contra 56 mulheres. Outras mais de 600 relataram abusos. Preso em dezembro de 2018, ele obteve prisão domiciliar em março de 2020, sob alegação de idade avançada e pertencimento ao grupo de risco da Covid-19. Desde então, alternou breves períodos no presídio e decisões judiciais que o mantiveram em casa.

A residência onde cumpre pena domiciliar é uma mansão de três andares em Anápolis, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, com segurança privada permanente. Paralelamente, há relatos de que continua comercializando “mesas de cristal” para compradores estrangeiros. Em Abadiânia, cidade que se tornou epicentro das denúncias, o clima ainda é descrito por entidades como o COAME como de medo entre vítimas, ativistas e testemunhas.

Mensagens de WhatsApp obtidas pelo Diário do Centro do Mundo indicariam ainda supostos casos de extorsão envolvendo policiais ligados ao médium e a seu filho, Sandro Teixeira — acusações que ampliam o debate sobre redes de proteção e obstáculos à responsabilização.

O contraste entre os dois casos é simbólico. Epstein morreu em 2019, em uma prisão federal de Nova York, em circunstâncias oficialmente classificadas como suicídio, enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. Seu patrimônio e suas conexões políticas e financeiras seguem sob escrutínio internacional. Já João de Deus, embora condenado a penas que somam quase cinco séculos, permanece em regime domiciliar.

A conexão formal entre os dois nomes permanece no campo das suspeitas mencionadas em documentos. Mas o cruzamento de denúncias, padrões e narrativas revela um cenário mais amplo: redes de exploração que atravessam fronteiras, operam sob o manto do poder e deixam, em diferentes países, vítimas que ainda aguardam justiça plena.