Igrejas alteram horários de cultos para o jogo do Brasil na Copa do Mundo e decisão gera debate entre religiosos

Como a Igreja Católica costuma agir durante a Copa do Mundo?

A partida entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 provocou mudanças na programação de diversas igrejas evangélicas em todo o país. Com expectativa de grande audiência, templos decidiram cancelar, antecipar ou remaranejar os horários dos cultos deste domingo (5), permitindo que os fiéis acompanhassem o jogo da Seleção Brasileira sem abrir mão das atividades religiosas.

Entre as principais mudanças está a da Associação Vitória em Cristo, liderada pelo pastor Silas Malafaia, que cancelou o culto da noite e concentrou as celebrações no período da manhã. Já a Igreja Renascer em Cristo optou por adiar o início do culto para depois do encerramento da partida. A decisão reflete uma prática que se tornou comum em anos de Copa do Mundo, quando igrejas procuram adaptar sua programação diante da mobilização nacional causada pelo futebol.

A iniciativa, no entanto, dividiu opiniões entre líderes religiosos. O teólogo Ranieri Costa, doutorando em Comunicação e Cultura, defendeu que não existe fundamento bíblico que determine um horário específico para a realização dos cultos. Segundo ele, fatores como mobilidade urbana, segurança, convivência familiar e até a saúde dos participantes devem ser considerados pelas igrejas. Para o pesquisador, algumas lideranças acabam atribuindo um caráter sagrado ao horário da reunião, quando o mais importante é a própria celebração da fé.

Em posição diferente, o pastor Matheus Alves, da Igreja Lagoinha, em Belo Horizonte, afirmou ser contrário à alteração da programação exclusivamente em razão do futebol. Para ele, mudanças são compreensíveis quando motivadas por necessidades relevantes, mas modificar cultos para acomodar uma partida esportiva representa uma prioridade inadequada diante da missão da igreja.

Silas Malafaia também justificou a decisão lembrando das dificuldades logísticas enfrentadas pelos membros da igreja localizada na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo o pastor, muitos fiéis dependem de ônibus, táxis, aplicativos de transporte e mototáxis para chegar ao templo, o que poderia ser prejudicado pela movimentação provocada pelo jogo.

Outra alternativa foi adotada pela 1ª Igreja Batista de Guarulhos, que decidiu transformar o evento esportivo em um momento de confraternização. O templo transmitiu a partida em um telão, ofereceu pipoca e lanches aos participantes e realizou o culto logo após o apito final. O pastor Bruno Ramos afirmou que os fiéis também poderiam acompanhar o jogo de suas casas, mas ressaltou que qualquer atividade pode ser vivida "para honra e glória de Jesus", inclusive assistir à Seleção Brasileira.

Como a Igreja Católica costuma agir durante a Copa do Mundo

Na Igreja Católica, não existe uma orientação oficial do Vaticano determinando alterações nos horários das missas durante grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo. A decisão costuma ficar a cargo de cada diocese, paróquia ou comunidade, conforme a realidade local. Em diferentes edições do Mundial, diversas paróquias brasileiras optaram por antecipar ou adiar celebrações para facilitar a participação dos fiéis, enquanto outras mantiveram normalmente sua programação litúrgica.

Bispos e sacerdotes costumam destacar que o esporte pode ser visto como um momento de lazer, convivência e integração entre as pessoas, desde que não substitua a vivência da fé nem comprometa a participação na vida religiosa. Em várias ocasiões, o próprio Vaticano reconheceu o futebol como instrumento de aproximação entre os povos e de promoção de valores como fraternidade, respeito, solidariedade e trabalho em equipe.

Fé e futebol seguem mobilizando milhões de brasileiros

A discussão evidencia como religião e futebol continuam ocupando espaços centrais na cultura brasileira. A Copa do Mundo altera a rotina de empresas, escolas, órgãos públicos e também das comunidades religiosas, que buscam conciliar a participação dos fiéis nas celebrações com um dos maiores eventos esportivos do planeta. O debate entre preservar os horários tradicionais dos cultos ou adaptá-los às circunstâncias demonstra que o tema continua despertando diferentes interpretações entre líderes e fiéis, mantendo viva a reflexão sobre o equilíbrio entre devoção, tradição e vida cotidiana.

Com informações da Folha de S.Paulo.