HISTÓRICO: eloquente Lula eleva tom contra guerras e denuncia mentalidade colonial das potências globais

Lula critica guerra, denuncia “nova colonização” e cobra paz em discurso na Cúpula da Celac

Em um discurso marcado por forte tom político e apelo ao multilateralismo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado (21), durante a Cúpula da Celac em Bogotá, que o mundo precisa escolher entre a guerra e a paz — e deixou claro de que lado está. Para Lula, o cenário internacional atual revela uma escalada perigosa de conflitos, alimentada por interesses geopolíticos e por uma “mania de colonizar outros países”.

Ao falar a líderes da América Latina, Caribe e África, o presidente brasileiro fez críticas diretas à atuação de potências globais, especialmente aos Estados Unidos, e condenou intervenções externas em países soberanos. “Não é possível alguém achar que é dono dos outros países”, afirmou, citando casos como Cuba e Venezuela. Em tom incisivo, questionou: “Em que documento do mundo está escrito que um país pode invadir outro? Isso não está na ONU, nem em lugar nenhum”.

Defesa da paz e crítica à lógica da guerra

Lula estruturou sua fala a partir de um contraste central: enquanto o mundo investe trilhões em armamentos, milhões de pessoas seguem enfrentando fome, pobreza e exclusão. Segundo ele, essa lógica revela uma distorção profunda das prioridades globais.

O presidente destacou que os gastos militares globais atingiram US$ 2,7 trilhões, enquanto cerca de 630 milhões de pessoas passam fome. Para Lula, trata-se de uma escolha política das grandes potências: investir na guerra em vez de garantir dignidade básica à população mundial.

“Essa não é a guerra que precisamos fazer”, afirmou. “A guerra que temos que vencer é contra a fome, o analfabetismo, a falta de energia e a desigualdade”.

“Tentativa de nova colonização” e disputa por recursos

Outro eixo central do discurso foi a denúncia de uma nova forma de colonização, agora associada à disputa por recursos estratégicos. Lula citou a pressão sobre a Bolívia em torno do lítio, mineral essencial para a transição energética, como exemplo de interferência externa.

Ao lembrar o histórico de exploração da América Latina e da África, o presidente alertou para a repetição de padrões coloniais. “Já levaram nosso ouro, nossa prata, nossos minérios. Agora querem novamente explorar nossas riquezas”, disse.

Ele defendeu que países do Sul Global deixem de ser apenas exportadores de matéria-prima e passem a desenvolver tecnologia e produção local. “Quem quiser nossos recursos, que venha produzir aqui, gerar desenvolvimento aqui”, afirmou.

Críticas à ONU e cobrança por reformas

Lula também direcionou críticas duras à Organização das Nações Unidas, especialmente ao Conselho de Segurança. Para ele, a instituição falha em sua principal missão: garantir a paz mundial.

“O que estamos assistindo é a falta total de funcionamento da ONU. Os países que deveriam evitar guerras são os que mais promovem conflitos”, declarou.

O presidente citou guerras e tensões recentes — como Gaza, Ucrânia, Irã, Iraque e Líbia — para ilustrar a ineficiência do sistema atual. Em sua avaliação, é urgente reformar o Conselho de Segurança, ampliando a participação de países da América Latina e da África.

Multilateralismo como alternativa

Apesar do tom crítico, Lula defendeu a cooperação internacional como caminho para enfrentar os desafios globais. Ele destacou o potencial da articulação entre os países da Celac e da União Africana, que juntos somam cerca de 2,2 bilhões de pessoas.

Entre as prioridades, citou o combate à fome, a transição energética, o enfrentamento das mudanças climáticas e o avanço tecnológico. Para o presidente, essas são as “verdadeiras batalhas” do século XXI.

Ao final, Lula reforçou a mensagem central de seu discurso: o mundo precisa abandonar a lógica da guerra e rejeitar qualquer tentativa de dominação entre países.

“Não podemos aceitar que os mais fortes se comportem como donos dos mais fracos. Já fomos colonizados. Lutamos pela independência. E não vamos aceitar sermos colonizados outra vez”, concluiu.