Ao menos 64 pessoas morreram e 81 foram presas nesta terça-feira (28) durante mais uma megaoperação das forças de segurança do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital. O governo Cláudio Castro (PL) classificou a ação como “a maior da história” contra o Comando Vermelho. Porém, além do alto número de mortos — entre eles quatro agentes de segurança — a ofensiva escancarou, mais uma vez, a estratégia de confrontos letais que tem marcado sua gestão, sem resultados estruturais e com impactos severos para a população civil.
Ao todo, 2.500 agentes foram mobilizados, com 32 blindados, helicópteros, drones e o cumprimento de cerca de 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão. O balanço oficial aponta a apreensão de 75 fuzis, rádios comunicadores e mais de 200 quilos de drogas. Apesar da exibição de armamento como troféu, especialistas apontam que tais resultados pouco alteram o poder econômico e territorial das facções, que se reorganizam rapidamente após grandes operações de impacto.
A ação desencadeou horas de intenso tiroteio, interrupção de deslocamentos e paralisação de serviços essenciais — efeitos já conhecidos e, ainda assim, reiterados pelo governo. Ao menos 46 escolas e unidades de saúde suspenderam atividades. A Avenida Brasil, uma das principais vias da cidade, teve trechos bloqueados e mais de 100 linhas de ônibus mudaram de rota. Civis foram feridos por balas perdidas, incluindo um homem em situação de rua, uma moradora dentro de uma academia e outro atingido em um ferro-velho.
Mesmo diante do caos vivido por moradores, Castro optou por politizar a operação. O governador, cuja gestão tem apostado no discurso do enfrentamento bélico como vitrine de autoridade, afirmou que o Rio estaria “sozinho” contra o crime organizado e culpou o governo federal pela recusa de empréstimo de blindados do Exército, alegando que a operação não foi autorizada sob Garantia da Lei e da Ordem (GLO) — instrumento que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rejeita.
“O presidente é contra a GLO”, disse Castro, responsabilizando o Planalto e o Supremo Tribunal Federal por supostos limites à atuação policial — argumento recorrente sempre que operações resultam em alto número de mortes.
Minutos depois, o Ministério da Justiça rebateu publicamente. Em nota, a pasta afirmou que não houve omissão e lembrou que o Rio de Janeiro dispõe de R$ 174 milhões em recursos federais de segurança não utilizados pela gestão estadual. Informou ainda que, entre 2024 e 2025, a Polícia Federal realizou 178 operações no estado, com 210 prisões, apreensão de mais de 10 toneladas de drogas e 190 armas — números que contrastam com a narrativa de isolamento disseminada pelo governador.
O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que a União segue atuando de forma integrada e destacou que o combate ao crime organizado exige inteligência, controle financeiro das facções e políticas de prevenção — abordagens historicamente negligenciadas no Rio.
Enquanto o governo estadual insiste em ações espetaculares e mortíferas como resposta à violência, a pergunta central permanece: quantas vezes o mesmo roteiro — mortes numerosas, comunidades sitiadas e famílias aterrorizadas — será repetido antes que se admita que o confronto permanente nunca foi, e não será, política de segurança sustentável?