Governadores do Nordeste rebatem críticas de Romeu Zema e defendem justiça histórica

Segundo os governadores, a fala do mineiro representa uma “narrativa falaciosa” que “insulta nossos estados e cidadãos”

Os nove governadores do Nordeste divulgaram, na sexta-feira (29), uma nota conjunta em resposta às declarações do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Em entrevista ao portal Metrópoles, Zema afirmou que os estados e cidades nordestinas recebem uma “ajuda eterna” do governo federal e defendeu a criação de um prazo para encerrar esse apoio.

Segundo os governadores, a fala do mineiro representa uma “narrativa falaciosa” que “insulta nossos estados e cidadãos”. O grupo ressaltou que, nas últimas décadas, a região passou a se projetar em áreas como ciência, cultura e economia graças à expansão das universidades federais e a investimentos em pesquisa.

Desenvolvimento e desigualdades históricas

Na avaliação dos gestores, o debate não se trata de concessões, mas de justiça. “Historicamente, setores do Sudeste resistem a discutir mecanismos de desenvolvimento regional, tratando-os como favores indevidos. Mas a Constituição é clara ao reconhecer a obrigação do Estado em corrigir desigualdades estruturais entre regiões”, diz o documento.

O texto é assinado por Rafael Fonteles (PT-PI), Paulo Dantas (MDB-AL), Jerônimo Rodrigues (PT-BA), Elmano de Freitas (PT-CE), Carlos Brandão (PSB-MA), Fátima Bezerra (PT-RN), Raquel Lyra (PSD-PE), João Azevedo (PSB-PB) e Fábio Mitidieri (PSD-SE).

Dados econômicos contestam discurso

Os governadores destacaram números do BNDES referentes a 2024: de R$ 133,7 bilhões em crédito liberados, R$ 48,7 bilhões ficaram no Sudeste e R$ 48,8 bilhões no Sul, enquanto o Nordeste recebeu R$ 13,3 bilhões. Minas Gerais, sozinho, obteve R$ 12,7 bilhões, sendo o quarto estado mais beneficiado.

Em relação a gastos tributários federais previstos para 2025, a União abrirá mão de R$ 536,4 bilhões. Do total, R$ 256,2 bilhões ficam no Sudeste, R$ 89,3 bilhões no Sul e R$ 79,3 bilhões no Nordeste. Proporcionalmente, Norte (75,6%) e Nordeste (37,2%) dependem mais desses mecanismos que o Sudeste (14,9%) e o Sul (22,2%).

Os governadores também lembraram que o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) atende o norte de Minas Gerais e o Espírito Santo, o que, segundo eles, desmente a ideia de exclusão desses estados.

Dívida concentrada no Sul e Sudeste

Outro ponto rebatido foi a relação entre o Nordeste e o endividamento público. O documento afirma que, até abril deste ano, a dívida dos estados com a União somava R$ 827,1 bilhões, dos quais 92% estavam concentrados no Sul e no Sudeste. O Nordeste responde por apenas 3% do total.

Trajetória histórica e políticas sociais

A nota também recorda o histórico de concentração de recursos no eixo Sul-Sudeste, desde o ciclo do ouro em Minas, passando pela política do café com leite e a industrialização paulista. Em contrapartida, o Nordeste viveu migrações forçadas, desestruturação agrária e políticas emergenciais contra a seca.

Nesse contexto, os governadores defenderam programas como Bolsa Família, BPC e Garantia Safra. “Não são privilégios nem muletas, mas instrumentos indispensáveis ao enfrentamento das desigualdades sociais e regionais. Longe de criar dependência, fortalecem o mercado interno e consolidam a cidadania”, afirmaram.

Repúdio a estigmas regionais

Ao final, os gestores repudiaram o que classificam como racismo, xenofobia e estigmatização do Nordeste. “Nossa cidadania é indivisível e exige respeito, com políticas públicas baseadas em dados e evidências, não em preconceitos e estereótipos”, concluíram.

Veja a nota na íntegra:

As governadoras e os governadores do Nordeste vêm a público repudiar declarações recentes que insultam nossos estados e cidadãos, reafirmando que o Brasil só avançará com cooperação federativa, respeito e verdade. O que está em debate não é apenas uma disputa política circunstancial, mas a forma como o país encara suas desigualdades históricas e projeta o futuro de sua economia e de sua gente. A verdade dos números desmente a narrativa falaciosa do governador Romeu Zema, expressa em entrevista ao portal Metrópoles.

Em 2024, o BNDES desembolsou R$ 133,7 bilhões, dos quais R$ 48,7 bilhões foram para o Sudeste e R$ 48,8 bilhões para o Sul. O Nordeste recebeu R$ 13,3 bilhões, o Centro-Oeste R$ 13,0 bilhões e o Norte R$ 9,7 bilhões. Ou seja, 73% de todos os desembolsos concentram-se no eixo Sul-Sudeste. Minas Gerais, sozinho, recebeu R$ 12,7 bilhões, sendo o quarto estado mais beneficiado.

O mesmo ocorre com os Gastos Tributários federais: em 2025, estima-se que o país renuncie a R$ 536,4 bilhões em tributos, dos quais R$ 256,2 bilhões ficarão no Sudeste e R$ 89,3 bilhões no Sul, enquanto o Nordeste receberá R$ 79,3 bilhões desses recursos. Em termos proporcionais, a relação entre Gastos Tributários e arrecadação revela que o Norte (75,6%) e o Nordeste (37,2%) dependem mais desses instrumentos que o Sudeste (14,9%) e o Sul (22,2%), o que evidencia a função redistributiva prevista na Constituição. Além disso, o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) também cobre o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, mostrando que não há preterição a esses estados. Os dados, portanto, são claros: não procede a ideia de que “o Nordeste vive de subsídios” ou que “Minas é prejudicada”.

Também não procede a insinuação de que os estados nordestinos seriam os principais responsáveis pelo endividamento do país. Dados atualizados até abril deste ano mostram que os estados brasileiros devem R$ 827,1 bilhões à União, sendo 92% dessa dívida concentrada nos estados do Sul e do Sudeste. O Nordeste responde por apenas 3% do total, proporção que desmente a narrativa de desequilíbrio e evidencia onde se encontra a real concentração do passivo.

É preciso compreender este cenário à luz da história. Desde o ciclo do ouro em Minas Gerais, que concentrou riqueza e infraestrutura na Colônia e no Império, passando pela centralização política no Rio de Janeiro e pela política do “café com leite” que assegurou recursos e crédito a São Paulo e Minas na República Velha, até os ciclos industriais do século XX, quando a indústria têxtil, automobilística e siderúrgica se instalaram no Sudeste com fortes subsídios e políticas de atração de mão de obra europeia, o Estado brasileiro sempre privilegiou o eixo Sudeste-Sul. Enquanto isso, o Nordeste foi marcado por migrações forçadas, desestruturação agrária e políticas emergenciais diante da seca. Apenas nas últimas décadas, com a expansão do sistema universitário federal e do investimento em pesquisa, a juventude nordestina começou a colher os frutos de uma presença mais consistente do Estado nacional, alcançando projeções positivas em ciência, cultura e economia.

Em pleno século XXI, porém, os recursos públicos destinados à modernização produtiva ainda se concentram majoritariamente nas regiões Sudeste e Sul. O Nordeste nunca reivindicou esmolas, mas lutou pela criação de políticas de desenvolvimento regional capazes de valorizar suas potencialidades e apoiar seus empreendedores. A concentração histórica de infraestrutura, capital humano e crédito no Centro-Sul contrasta com a luta do Nordeste contra o abandono e o preconceito, e torna ainda mais urgente uma política nacional de desenvolvimento equilibrado.

Nesse contexto, também é necessário defender as políticas assistenciais. Programas como Bolsa Família, BPC e Garantia Safra não são privilégios nem muletas, mas instrumentos contracíclicos indispensáveis ao combate das desigualdades sociais e regionais. Funcionam como colchão de proteção em tempos de crise e como alavanca para dinamizar as economias locais. Cada real transferido a famílias de baixa renda gera efeitos multiplicadores sobre o comércio, a agricultura familiar e os serviços, ampliando a base econômica e tributária dos municípios. Longe de fomentar dependência, essas políticas fortalecem o mercado interno, reduzem vulnerabilidades e consolidam a cidadania.

O que está em jogo, portanto, é a própria compreensão de desenvolvimento. Historicamente, setores do Sudeste resistem a discutir mecanismos de desenvolvimento regional, tratando-os como concessões indevidas. Mas não se trata de concessão: trata-se de justiça histórica e de cumprimento da Constituição, que reconhece a obrigação do Estado de corrigir desigualdades estruturais entre regiões.

A política nacional de desenvolvimento deve combinar crédito público — via BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil, Finep e bancos regionais — com instrumentos tributários que garantam investimento, emprego e infraestrutura em áreas em que o mercado sozinho não entrega. Essa é uma agenda que os governadores nordestinos defendem com prioridade, e que não pode ser confundida com privilégios, mas sim entendida como condição para que o país inteiro avance.

A Federação é um pacto de solidariedade, não de hostilidade. Transformar diferenças econômicas em hierarquias morais de regiões e de pessoas é oportunismo eleitoral que empobrece o debate e fragiliza o Brasil. Esse tipo de retórica divide o país, desrespeita milhões de cidadãos e compromete o ambiente de negócios, porque cria incertezas institucionais.

Reafirmamos, por isso, nosso repúdio a toda forma de racismo, xenofobia e estigmatização regional. O Nordeste não aceitará ser transformado em bode expiatório de disputas eleitorais. Nossa cidadania é indivisível e exige respeito, com políticas públicas baseadas em dados e evidências, não em preconceitos e estereótipos.

Comprometemo-nos, como governadoras e governadores do Nordeste, a defender o crédito para o desenvolvimento com critérios técnicos e transparência; a aprimorar a avaliação dos Gastos Tributários, assegurando que gerem contrapartidas em emprego e inovação; a reforçar a cooperação inter-regional em cadeias estratégicas — das energias renováveis à logística, da saúde às tecnologias industriais e digitais —; e a promover o diálogo federativo em espírito republicano, pautado na verdade dos fatos e no respeito às instituições.