A TV Globo colocou no ar, em horário nobre, uma das críticas mais contundentes ao vício em apostas já exibidas em uma novela brasileira. Em Quem Ama Cuida, o personagem Ulisses Brandão, interpretado por Alexandre Borges, representa o drama vivido por milhares de brasileiros que se afundam em dívidas na tentativa de enriquecer rapidamente por meio de apostas.
O problema é que a mesma emissora que denuncia os efeitos devastadores do jogo compulsivo na ficção tornou-se, nos últimos anos, uma das maiores vitrines publicitárias das casas de apostas esportivas e cassinos online do país.
A situação expõe uma contradição cada vez mais difícil de ignorar.
A novela mostra o lado sombrio das apostas
Na trama escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Ulisses Brandão vive uma espiral de autodestruição causada pelo vício em jogos.
Para sustentar uma vida de luxo e esconder a falência de sua empresa, o personagem mergulha em apostas de alto risco. Contrai empréstimos, acumula dívidas, mente para a família e passa a acreditar que uma única vitória resolverá todos os seus problemas financeiros.
O roteiro retrata elementos clássicos da ludopatia — nome dado ao transtorno relacionado ao vício em jogos:
- busca incessante por recuperar perdas;
- endividamento crescente;
- deterioração das relações familiares;
- mentiras constantes;
- perda do controle financeiro;
- sofrimento psicológico.
À medida que a história avança, o personagem entra em colapso financeiro e emocional, tornando-se inclusive suspeito da morte do próprio irmão milionário.
A mensagem transmitida ao público é clara: apostas podem destruir vidas.
Enquanto isso, as bets ocupam os intervalos da Globo
Fora da ficção, porém, o cenário é bastante diferente.
O mercado de apostas online tornou-se um dos maiores anunciantes da televisão brasileira e a Globo figura entre seus principais parceiros comerciais.
Marcas como Betnacional, Betano, Bet365, BetMGM, Novibet e EstrelaBet estão presentes em transmissões esportivas, realities, programas de auditório e eventos especiais da emissora.
A presença das bets é tão intensa que muitas delas adquiriram cotas milionárias de patrocínio em competições como Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa do Mundo.
Em alguns casos, a relação vai além da simples compra de espaço publicitário. A BetMGM, por exemplo, possui parceria empresarial com o Grupo Globo e tem campanhas frequentemente estreladas por Luciano Huck.
A mesma mensagem, dois sentidos opostos
O contraste chama atenção porque a novela exibe exatamente os riscos que as campanhas publicitárias costumam minimizar.
Enquanto o personagem Ulisses perde dinheiro, contrai dívidas e destrói a própria vida por causa das apostas, os comerciais exibidos nos intervalos apresentam as bets como entretenimento, diversão e oportunidade de ganhos.
Na prática, o telespectador recebe duas mensagens simultâneas:
- na ficção, o jogo aparece como um caminho para o desastre;
- na publicidade, o jogo surge associado ao lazer, emoção e sucesso.
O debate que cresce no Brasil
O avanço das apostas eletrônicas vem provocando debates cada vez mais intensos entre economistas, psicólogos, especialistas em saúde pública e autoridades governamentais.
Diversos estudos e levantamentos apontam crescimento do endividamento familiar associado às apostas online, especialmente entre jovens e trabalhadores de baixa renda.
Nesse contexto, a novela da Globo acaba tocando em uma ferida social real e atual. Mas também levanta uma pergunta inevitável:
até que ponto uma emissora pode denunciar os efeitos nocivos das apostas em sua principal novela enquanto recebe milhões de reais das mesmas empresas para promover seus serviços durante a programação?
A resposta talvez esteja na própria lógica do mercado televisivo contemporâneo. Porém, para muitos telespectadores, a coexistência entre o discurso crítico da dramaturgia e a intensa publicidade das bets representa uma contradição difícil de explicar — e ainda mais difícil de ignorar.