A dois dias da Quarta-feira de Cinzas, voltou a circular nas redes sociais um vídeo em que Frei Gilson afirma que “não tem como ser santo pulando Carnaval”. Na gravação, o religioso associa a festa a comportamentos que, segundo ele, afastariam os fiéis da santidade, como consumo de bebida, roupas curtas e liberdade de costumes. Para o frei, quem frequenta a Igreja e participa da folia estaria desagradando a Deus.
A declaração reacende um debate antigo: quem tem autoridade para definir o que é legítimo na vivência da fé e, sobretudo, na expressão cultural de um país diverso como o Brasil? O Carnaval é uma das maiores manifestações populares do mundo, reúne milhões de pessoas nas ruas, mobiliza comunidades inteiras, gera renda, emprego e cultura. Reduzi-lo a um espaço exclusivo de “pecado” é ignorar sua complexidade histórica, social e artística.
Ao afirmar que não há santidade possível na folia, Frei Gilson adota uma visão que transforma a fé em instrumento de julgamento público. A tradição católica é plural, marcada por diferentes correntes teológicas e sensibilidades pastorais. Não cabe a um único religioso estabelecer, de forma absoluta, o que é certo ou errado para todos os católicos — muito menos para a sociedade como um todo.
Nas redes, as reações se dividiram. Houve quem endossasse o discurso moralizante. Outros apontaram contradições, lembrando que a vivência cristã também se mede pela prática cotidiana da solidariedade, do respeito e do amor ao próximo — valores que não se anulam automaticamente diante de uma festa popular.
Enquanto isso, na Marquês de Sapucaí, a Acadêmicos de Niterói levou à avenida uma ala que ironizava o conservadorismo: integrantes fantasiados de latas de conserva faziam uma crítica bem-humorada aos discursos moralistas. A montagem que ilustra esta matéria, com o rosto de Frei Gilson inserido entre os “conservadores”, sintetiza o embate simbólico.
O Carnaval, goste-se ou não, é parte constitutiva da identidade brasileira. Milhares de católicos — e também evangélicos, espíritas, umbandistas, agnósticos — participam da festa sem que isso os torne menos éticos ou menos comprometidos com sua fé. A santidade, se existe, não se mede pelo calendário festivo, mas pela coerência entre discurso e prática ao longo do ano inteiro.