Fim da Lei Magnitsky provoca bate-boca entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira

A disputa pelo comando da direita está aberta: Nikolas e Eduardo Bolsonaro travam uma das batalhas

A decisão de Donald Trump de encerrar a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes provocou uma disputa interna na ultradireita brasileira. Eduardo Bolsonaro culpou a falta de unidade do bolsonarismo pelo fracasso da pressão internacional, gerando reação imediata. Nikolas Ferreira rebateu publicamente o filho do ex-presidente e o acusou de distorcer os fatos e transferir responsabilidades. O embate expôs uma briga aberta pelo comando político do campo bolsonarista.

O QUE ACONTECEU

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negociada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de encerrar a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), anunciada ontem, abriu uma disputa explícita pelo controle da ultradireita brasileira. O episódio teve como principal efeito colateral um confronto público entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que terminou com uma exposição constrangedora do filho do ex-presidente nas redes sociais, na noite desta sexta-feira (13).

Apontado como um dos articuladores de movimentações internacionais para tentar impedir o avanço das investigações e a possível prisão de Jair Bolsonaro (PL), Eduardo responsabilizou a “sociedade brasileira” e a “falta de coesão interna”, além do “insuficiente apoio às iniciativas conduzidas no exterior”, pelo recuo de Trump. Em nota pública assinada em conjunto com o influenciador Paulo Figueiredo — neto do ex-ditador João Baptista Figueiredo —, Eduardo criticou parlamentares e setores do bolsonarismo, atribuindo a eles o fracasso da tentativa de pressão internacional. Segundo o texto, a ausência de unidade política teria agravado a situação e inviabilizado uma resposta mais eficaz. Ele escreveu:  "NOTA PÚBLICA  Recebemos com pesar a notícia da mais recente decisão anunciada pelo governo americano. Somos gratos pelo apoio que o presidente Trump demonstrou ao longo dessa trajetória e pela atenção que dedicou à grave crise de liberdades que assola o Brasil. Lamentamos que a sociedade brasileira, diante da janela de oportunidade que teve em mãos, não tenha conseguido construir a unidade política necessária para enfrentar seus próprios problemas estruturais. A falta de coesão interna e o insuficiente apoio às iniciativas conduzidas no exterior contribuíram para o agravamento da situação atual. Esperamos sinceramente que a decisão do Presidente @realDonaldTrump seja bem-sucedida em defender os interesses estratégicos dos americanos, como é seu dever. Quanto a nós, continuaremos trabalhando, de maneira firme e resoluta, para encontrar um caminho que permita a libertação do nosso país, no tempo que for necessário e apesar das circunstâncias adversas. Que Deus abençoe a América, e que tenha misericórdia do povo brasileiro. Eduardo Bolsonaro Paulo Figueiredo"

Horas depois, em meio a um intenso bate-boca dentro do próprio campo bolsonarista, Nikolas Ferreira reagiu duramente à nota. O deputado mineiro entrou na disputa pelo protagonismo político da extrema direita e acusou Eduardo de falsear a realidade ao transferir responsabilidades. Para Nikolas, culpar o povo brasileiro ou o Congresso por uma decisão geopolítica tomada pelos Estados Unidos não seria apenas um erro de avaliação, mas uma “fraude intelectual”.

Na sequência, o parlamentar criticou o fato de Eduardo atuar a partir dos Estados Unidos, enquanto aliados permaneceram no Brasil expostos às pressões políticas e jurídicas. Nikolas afirmou que a tentativa de simplificar um cenário complexo serviria apenas para deslocar injustamente a culpa para quem, segundo ele, enfrenta riscos reais no país.

O deputado mineiro ainda acusou Eduardo de agir com “perversidade” ao responsabilizar militantes e parlamentares bolsonaristas pelo insucesso da iniciativa internacional contra Alexandre de Moraes. Em sua avaliação, há pessoas pagando um preço elevado por confrontar o que chama de abusos do Judiciário e do governo federal, e atacá-las seria injusto e desleal.

Por fim, Nikolas impôs o tom mais duro do embate ao afirmar que o país não precisa de “bodes expiatórios” nem de “narrativas infantis”. Sem citar diretamente o nome de Eduardo, o deputado o acusou de falta de compromisso com a verdade e afirmou que, naquele momento, a união não seria um discurso retórico, mas uma condição para a sobrevivência moral e política do grupo que ainda gravita em torno do bolsonarismo.

Veja a íntegra da postagem do deputado mineiro: Atribuir ao povo brasileiro ou aos parlamentares a responsabilidade por uma decisão geopolítica tomada pelos Estados Unidos não é apenas um erro de análise - é uma fraude intelectual. Trata-se de uma tentativa conveniente de simplificar um cenário complexo, deslocando injustamente a responsabilidade para quem, na prática, tem enfrentado pressões e riscos reais dentro do país. Quem acompanha minimamente a realidade sabe que há, no Brasil, gente pagando um preço alto por enfrentar a tirania instalada. Apontar o dedo para esses é mais do que injusto: é perverso. Sou testemunha do árduo trabalho dos meus colegas parlamentares na busca pela liberdade do país, contra os abusos do judiciário e do governo petista.  O país não precisa de bodes expiatórios nem de narrativas infantis. Precisa de lucidez, caráter e união. Dividir o povo e quem os representa é o último recurso de quem já perdeu qualquer compromisso com a verdade. Unir-se, neste momento, não é opção retórica - é condição de sobrevivência moral e política.