O uso de drones para lançar explosivos em comunidades do Rio de Janeiro deixou de ser uma hipótese para se tornar motivo de preocupação das forças de segurança. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra um equipamento não tripulado sobrevoando uma área residencial e lançando um artefato explosivo contra uma rua da comunidade Dois Irmãos. A cena lembra ataques registrados em guerras recentes, como os conflitos na Ucrânia, Faixa de Gaza, Sudão e Irã, mas ocorreu em território brasileiro.
As imagens reforçam investigações que apontam para uma nova estratégia do crime organizado: enviar integrantes para atuar na guerra da Ucrânia com o objetivo de adquirir treinamento militar e conhecimento sobre tecnologias de combate, especialmente o uso operacional de drones.
Ataque com drone acende alerta no Rio de Janeiro
O vídeo, divulgado no último fim de semana, mostra o momento em que um drone lança um explosivo improvisado próximo a um veículo estacionado. A explosão deixou uma pessoa ferida por estilhaços.
No domingo (13), equipes do 18º Batalhão da Polícia Militar foram acionadas para verificar a denúncia de um ataque com drone na comunidade Dois Irmãos, mas não encontraram vestígios da ocorrência ao chegarem ao local. Mesmo assim, o episódio reforçou a preocupação das autoridades com a rápida evolução tecnológica das facções criminosas.
Facção envia brasileiros para aprender técnicas de guerra na Ucrânia
As investigações da Subsecretaria de Inteligência do Estado do Rio de Janeiro (SSI) indicam que o Comando Vermelho (CV) passou a financiar viagens de integrantes sem antecedentes criminais para a Ucrânia.
A estratégia seria aproveitar o recrutamento de voluntários estrangeiros criado pelo presidente Volodymyr Zelensky no início da invasão russa. Na época, a chamada Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia aceitava combatentes estrangeiros para reforçar as tropas ucranianas.
Os voluntários recebiam remuneração que variava entre US$ 550 e US$ 4,8 mil por mês, conforme a função desempenhada. A Legião foi oficialmente incorporada às Forças Armadas da Ucrânia no fim de 2025.
Segundo dados do Itamaraty, ao menos 22 brasileiros morreram lutando ao lado da Ucrânia. Outros oito brasileiros perderam a vida combatendo pelas forças russas.
Treinamento militar retorna ao Brasil
Embora a Ucrânia exija que voluntários estrangeiros não possuam antecedentes criminais, investigações apontam que integrantes do crime organizado conseguem contornar essa exigência.
De acordo com informações obtidas por investigadores, um traficante ligado ao Comando Vermelho recebeu treinamento tático na Ucrânia, incluindo capacitação para operação de drones em cenários de combate.
Após ser expulso das Forças Armadas ucranianas por uso de drogas, ele retornou ao Brasil e passou a compartilhar o conhecimento adquirido com outros integrantes da facção no Complexo do Alemão.
Serviços de inteligência registraram testes com drones agrícolas capazes de transportar até 80 quilos de carga. Esses equipamentos podem ser adaptados para transportar armas, drogas ou lançar explosivos durante confrontos.
Especialista alerta para internacionalização do crime
Para Sandro Teixeira, analista e professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), o fenômeno é resultado da globalização das organizações criminosas.
Segundo ele, a transferência de conhecimento militar não ocorre exclusivamente por meio da guerra na Ucrânia.
Grupos terroristas que atuam na África e mantêm conexões com organizações criminosas da América Latina também utilizam drones em operações armadas, contribuindo para a disseminação dessas tecnologias.
O especialista avalia que a tendência é de crescimento desse tipo de ameaça, ao mesmo tempo em que as forças de segurança precisarão desenvolver sistemas capazes de detectar e neutralizar drones utilizados por criminosos.
Polícia cria estrutura especializada contra drones
O avanço dessa modalidade de ataque levou a Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) a criar a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT).
Segundo a corporação, equipes das delegacias especializadas realizam monitoramento permanente para identificar drones utilizados por facções criminosas em atividades como tráfico de drogas e ataques contra policiais.
Nos últimos meses, pelo menos dois episódios envolvendo drones armados foram registrados no estado.
Durante a megaoperação no Complexo da Penha, em outubro de 2025, criminosos lançaram granadas contra equipes policiais utilizando aeronaves não tripuladas.
Em março deste ano, explosivos também foram arremessados contra militares na comunidade Vila Sapê, em Curicica.
A Polícia Militar do Rio de Janeiro também reforçou medidas para proteger seus próprios drones empregados em operações e apreendeu bloqueadores de sinal utilizados por criminosos em ações realizadas nos bairros de Acari e Brás de Pina.
Em um dos equipamentos apreendidos foi encontrado o símbolo ucraniano Tryzub, tradicional emblema nacional do país europeu.
Cooperação entre Brasil e Ucrânia ainda é limitada
Fontes diplomáticas ucranianas afirmam que a cooperação entre Brasília e Kiev ainda é insuficiente para impedir que suspeitos ligados ao crime organizado brasileiro ingressem nas forças que atuam no conflito.
Segundo diplomatas ouvidos sob reserva, as autoridades ucranianas costumam tomar conhecimento desses casos apenas por meio de reportagens da imprensa e não recebem informações sistemáticas das autoridades brasileiras sobre viajantes suspeitos.
Questionados sobre medidas para impedir que integrantes de facções deixem o Brasil rumo à guerra, o Itamaraty informou apenas que mantém alerta consular desaconselhando a participação de brasileiros em conflitos armados no exterior e destacando os riscos dessa decisão.
O Ministério das Relações Exteriores, no entanto, não esclareceu se mantém cooperação direta com o governo ucraniano para impedir o recrutamento de suspeitos ligados ao crime organizado. Já a Polícia Federal, responsável pelo controle migratório nos aeroportos, não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem.