Ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy é preso e começa a cumprir pena de cinco anos

Centenas de apoiadores protestam em bairro nobre de Paris e afirmam que ex-presidente é vítima de perseguição judicial

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy começou, nesta terça-feira (21), a cumprir pena de cinco anos de prisão na penitenciária de La Santé, em Paris. Condenado por conspiração em um esquema de financiamento ilegal de campanha com recursos da Líbia, Sarkozy se tornou o primeiro ex-chefe de Estado francês a ser encarcerado desde o marechal Philippe Pétain, condenado por colaboração com o regime nazista após a Segunda Guerra Mundial.

Aos 70 anos, o ex-presidente deixou sua residência acompanhado da esposa, Carla Bruni, sob aplausos de simpatizantes que entoavam a Marselhesa. Pouco antes de ser conduzido à prisão, publicou mensagem na rede X afirmando ser vítima de perseguição política: “Não é um ex-presidente quem está sendo encarcerado, mas um homem inocente.”

O caso e a condenação

Sarkozy foi acusado de liderar, junto a assessores próximos, uma operação para captar milhões de euros em dinheiro vivo do regime líbio de Muammar Gaddafi, morto em 2011. Embora absolvido da acusação de ter recebido pessoalmente os valores, foi condenado por associação criminosa. Seus advogados recorreram da sentença e pediram liberdade provisória até o julgamento da apelação, previsto para dezembro.

O ex-presidente permanecerá isolado em uma cela individual de cerca de 9 m², com banheiro, chuveiro e televisão, em área reformada da penitenciária. Terá direito a telefonemas e poderá manter contato com a família.

Repercussão política e simbólica

A condenação é considerada um marco na política francesa, por sinalizar maior rigor da Justiça contra crimes de colarinho branco. Durante décadas, políticos condenados raramente chegavam à prisão. Apesar dos escândalos, Sarkozy ainda exerce influência relevante na direita francesa, em meio à ascensão de grupos ultraconservadores.

A decisão judicial provocou forte reação entre seus aliados. “Nicolas Sarkozy não é um criminoso”, declarou Jacqueline Fraboulet, uma de suas apoiadoras presentes diante da residência do ex-presidente.

O presidente Emmanuel Macron, que mantém relação próxima com Sarkozy, chegou a visitá-lo antes da prisão. O gesto e a promessa do ministro da Justiça, Gérald Darmanin, de também visitá-lo, foram criticados pela oposição de esquerda, que acusou o governo de interferir simbolicamente na independência do Judiciário.

O simbolismo dos livros

Antes de ser levado à prisão, Sarkozy revelou ao Le Figaro que levaria consigo três livros, entre eles “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, romance sobre um homem injustamente preso que busca vingança e redenção — escolha interpretada como mensagem de resistência.

Protestos em Paris

Na manhã da terça-feira, centenas de apoiadores se reuniram em frente à residência de Sarkozy, na Villa Montmorency, bairro nobre do 16º distrito de Paris. O ato, convocado por seus filhos, foi descrito como um gesto “de amor e solidariedade”. Os manifestantes entoaram o hino nacional e gritavam: “Nicolas, estamos com você!”

“Isso é perseguição. Por que prender um ex-presidente que não representa perigo?”, questionou Annie, de 60 anos, presente ao protesto.

Contexto histórico e geopolítico

O caso Sarkozy é considerado um dos escândalos mais graves da política francesa contemporânea, envolvendo corrupção internacional e a geopolítica do petróleo. A acusação sustenta que o ex-presidente recebeu recursos do governo líbio para financiar sua campanha de 2007, comprometendo-se em troca a reabilitar internacionalmente Muammar Gaddafi.

Anos depois, em 2011, Sarkozy teve papel decisivo na intervenção militar da OTAN na Líbia, que culminou na queda e morte do líder líbio — um paradoxo que alimentou suspeitas de traição e manipulação política. A operação, oficialmente justificada como ação humanitária, destruiu o Estado líbio e espalhou instabilidade pela região.

Mesmo alegando inocência e denunciando motivações políticas, Sarkozy foi considerado peça central de um sistema clandestino de financiamento eleitoral, montado com o auxílio de colaboradores como Claude Guéant e Brice Hortefeux. Intermediários, entre eles o empresário franco-libanês Ziad Takieddine, teriam transportado malas com mais de € 5 milhões em espécie de Trípoli a Paris.

Takieddine, que seria testemunha-chave, morreu no Líbano pouco antes da sentença. A Justiça, contudo, entendeu que Sarkozy teve participação direta na conspiração. A gravidade do caso levou à execução imediata da pena, mesmo durante o recurso.

Um capítulo decisivo na história recente da França

A prisão de Nicolas Sarkozy representa um divisor de águas na relação entre poder político e Justiça na França. Ela expõe as contradições de uma elite que, por décadas, se manteve imune às consequências legais de seus atos e marca o início de um novo paradigma de responsabilização.

Enquanto cumpre pena em La Santé, o ex-presidente tenta manter a imagem de homem injustiçado — evocando o personagem de Dumas que, após anos de prisão, busca restaurar sua honra e vingar-se de seus algozes.