O ex-assessor jurídico da Casa Branca Ty Cobb afirmou que o discurso do presidente Donald Trump, realizado nesta quinta-feira (16), sobre uma suposta interferência estrangeira nas eleições dos Estados Unidos faz parte de uma estratégia para justificar a adoção de medidas excepcionais durante o processo eleitoral. Segundo Cobb, o objetivo seria criar um ambiente favorável para a decretação de uma emergência nacional às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro de 2026.
Cobb integrou o primeiro governo Trump e foi responsável por coordenar a resposta da Casa Branca às investigações sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016. Em entrevista ao programa PBS NewsHour, o ex-conselheiro afirmou acreditar que a narrativa construída pelo presidente busca abrir caminho para ações que possam interferir diretamente na realização da votação.
Ty Cobb afirma que Trump pode usar forças federais nos locais de votação
Durante a entrevista, Ty Cobb disse considerar "praticamente certa" a possibilidade de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) serem posicionados em locais de votação. A hipótese já havia sido defendida por aliados de Trump, como Steve Bannon e Todd Blanche.
O ex-assessor também não descartou a eventual utilização da Guarda Nacional durante o período eleitoral. Na avaliação de Cobb, a presença dessas forças poderia intimidar eleitores, especialmente integrantes de minorias e comunidades imigrantes, além de criar um ambiente propício para novos questionamentos sobre o resultado das urnas.
Segundo ele, Trump já teria manifestado interesse, após as eleições de 2020, em apreender urnas eletrônicas, e a repetição da narrativa de fraude poderia servir para justificar novas iniciativas semelhantes.
Ex-conselheiro acusa Trump de tentar preservar poder político
Para Ty Cobb, o presidente norte-americano busca impedir uma eventual vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas e preservar sua influência política sobre o governo federal.
O ex-advogado da Casa Branca afirmou que Donald Trump ampliou o uso da estrutura do governo para atender interesses políticos pessoais e demonstrou preocupação com o enfraquecimento dos mecanismos internos de contenção existentes durante o primeiro mandato.
Ty Cobb diz que atual governo tem menos freios internos
Na entrevista, Cobb comparou a atual administração ao primeiro mandato de Trump (2017-2021). Segundo ele, figuras como John Kelly, James Mattis, Nikki Haley e Mike Pompeo frequentemente atuavam para conter decisões consideradas precipitadas pelo presidente.
Agora, de acordo com o ex-assessor, esses nomes foram substituídos por auxiliares que demonstram lealdade quase absoluta ao chefe da Casa Branca, reduzindo os mecanismos internos de controle.
Cobb também criticou mudanças promovidas no Departamento de Justiça e no FBI, afirmando que diversos procuradores experientes deixaram seus cargos e que recursos destinados ao combate ao terrorismo, à lavagem de dinheiro, às fraudes e às violações de direitos civis passaram a ser direcionados prioritariamente para operações de imigração.
Ex-assessor diz que alegações de fraude eleitoral não têm provas
Questionado sobre as acusações de fraude eleitoral e de suposta interferência chinesa nas eleições americanas, Ty Cobb afirmou que essas ameaças vêm sendo amplificadas sem respaldo em evidências concretas.
Embora reconheça que países como China, Rússia, Irã e Venezuela historicamente desenvolvem campanhas de influência política no exterior, Cobb disse não haver provas consistentes de manipulação das urnas eletrônicas utilizadas nas eleições dos Estados Unidos.
Como exemplo, lembrou que a emissora Fox News concordou em pagar US$ 787,5 milhões à empresa Dominion Voting Systems após divulgar informações falsas sobre supostas fraudes nas eleições presidenciais de 2020.
Ty Cobb prevê novas acusações sem respaldo técnico
O ex-assessor afirmou ainda esperar que Donald Trump apresente novas acusações sem base sólida durante seus pronunciamentos, incluindo alegações envolvendo o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela.
Segundo Cobb, eventuais denúncias dificilmente contarão com o respaldo de especialistas da comunidade de inteligência, historiadores ou jornalistas reconhecidos. Na avaliação do ex-conselheiro, essas narrativas tendem a ser sustentadas principalmente por aliados políticos e comentaristas que, segundo ele, já defenderam teorias conspiratórias em outras ocasiões.