Era da mineração, era da indústria, era da nuvem: primeiro o lucro, depois o desastre, e por fim a conta social

O Brasil atrai data centers e investimentos em IA, mas enfrenta risco ambiental crescente por alto consumo de energia e água, exigindo planejamento sustentável.

O Brasil acelera rumo à economia digital, mas ainda não sabe como vai pagar a conta ambiental.

De um lado, o país disputa investimentos bilionários em inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais. De outro, começa a ver se desenhar, quase em silêncio, uma nova fronteira de impacto ambiental: a expansão dos grandes data centers, estruturas gigantescas que consomem enormes volumes de energia e água para manter a internet e a IA funcionando 24 horas por dia.

Enquanto o debate público segue concentrado em empregos, inovação e competitividade, pouco se discute o que essa infraestrutura significará para rios, aquíferos, sistemas elétricos e cidades brasileiras nas próximas décadas.

Crescimento econômico, tecnologia e uma nova infraestrutura pesada

Nos últimos anos, o Brasil passou a ser visto por gigantes da tecnologia como um pilar estratégico para a infraestrutura digital na América Latina. O governo federal lançou uma política nacional para atrair data centers com incentivos fiscais e promessa de energia renovável, em meio a viagens de autoridades econômicas aos Estados Unidos para vender o país como destino para a nova “economia da nuvem”. 

Empresas como Microsoft e Amazon Web Services (AWS) já assinaram contratos de alto valor para ampliar ou instalar novas estruturas de data centers no país, impulsionadas pela explosão da inteligência artificial e pelos serviços de computação em nuvem. 

A lógica é clara: quanto mais empresas, governos e cidadãos dependem de armazenamento em nuvem, videoconferências, streaming, IA generativa, meios de pagamento digitais e redes sociais, maior a pressão por capacidade computacional. O resultado é um crescimento acelerado de grandes complexos de servidores que, na prática, funcionam como as “fábricas” da era digital.

Mas, como toda infraestrutura pesada, essa expansão vem com uma pegada ambiental significativa.

Data centers: o lado oculto da nuvem

Globalmente, os data centers já respondem por cerca de 1,5% de todo o consumo de eletricidade no mundo, e esse uso cresce em média 12% ao ano desde 2017 — ritmo mais de quatro vezes superior ao crescimento do consumo elétrico global. 

Além da energia, há o consumo de água: em estruturas que usam sistemas de resfriamento à base de água, as quantidades necessárias para manter os servidores em temperatura adequada são enormes. Estimativas recentes mostram que o boom de data centers voltados à IA está se tornando um fator relevante de estresse hídrico em várias regiões do planeta. 

No Brasil, esse debate ainda é incipiente. Ao mesmo tempo em que o país oferece energia relativamente limpa (com forte participação de hidrelétricas, eólica e solar) e atrai investimentos, não há uma discussão à altura sobre:

* de onde virá a energia adicional para alimentar essa infraestrutura;

* que tipo de sistemas de resfriamento serão adotados;

* como será a competição por água com populações urbanas, agricultura e outros usos econômicos;

* como licenciar, monitorar e, se necessário, frear projetos em áreas vulneráveis.

O mapa da expansão: exemplos de data centers no Brasil

Hoje, o Brasil já abriga uma rede considerável de grandes data centers e vive uma nova onda de projetos.

Hiperscala na região de São Paulo

A região metropolitana de São Paulo se consolidou como o principal polo de infraestrutura digital do país. A Amazon Web Services opera, desde 2011, a região América do Sul (São Paulo), com múltiplas zonas de disponibilidade distribuídas em instalações na Grande São Paulo.

A Scala Data Centers transformou o campus de Tamboré, em Barueri, em um dos maiores complexos de data centers da América Latina, com 90 MW de capacidade, e já prepara um mega-campus adicional (SP6) que deve elevar ainda mais a concentração de servidores no estado. Outros projetos em Campinas e Jundiaí ampliam esse cinturão tecnológico que funciona, na prática, como o coração digital do país.

Expansão para outros estados

A mesma Scala opera data centers no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e em países vizinhos, enquanto a Equinix, outra gigante global, já conta com oito unidades em operação no Brasil e constrói a nona. Esses movimentos mostram que o país vive um ciclo acelerado de ampliação da infraestrutura, preparando-se para demandas crescentes de processamento de dados e inteligência artificial.

Nordeste: um novo eixo de atração, com destaque ao Piauí

A região Nordeste começa a despontar como nova fronteira da infraestrutura digital, impulsionada por dois fatores estratégicos: a abundância de energia renovável (eólica e solar) e a proximidade com cabos submarinos internacionais que conectam o Brasil à África, Europa e Caribe. Estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte já negociam com grandes operadoras e investidores globais, interessados em estruturas de alto desempenho alimentadas por energia limpa.

O Piauí, que figura entre os maiores produtores de energia solar do país e avança rapidamente na geração eólica e na implantação de hidrogênio verde, entrou no radar dessas empresas. A combinação de vastos parques solares, disponibilidade de áreas e potencial para linhas dedicadas de transmissão cria condições para que o estado receba, em breve, seus primeiros projetos de data centers de grande porte. Embora ainda em fase de prospecção, o Piauí se posiciona como candidato estratégico para abrigar operações energéticas intensivas, num movimento semelhante ao que transformou estados do Nordeste em exportadores de energia renovável.

Essa possível chegada de data centers à região representa oportunidades econômicas, mas também acende alertas: o consumo energético elevado e a necessidade de infraestrutura hídrica adequada exigem planejamento ambiental rigoroso para evitar impactos indesejados em ecossistemas frágeis do semiárido e do litoral.

Google e a lógica da IA

No campo da inteligência artificial, o Brasil também entra no radar das big techs. O Google Cloud anunciou que pretende instalar em sua infraestrutura sediada em São Paulo os chips TPU Trillium, projetados para processamento intensivo de IA, e avalia transformar o Brasil em um hub global de treinamento de modelos, justamente por reunir oferta de energia limpa e custos relativamente baixos. 

Na COP30, em Belém, a discussão sobre IA e clima trouxe à tona o dilema: enquanto empresas como Google e Nvidia ressaltam o potencial da tecnologia para otimizar redes elétricas, monitorar desmatamento e melhorar a gestão de recursos naturais, ambientalistas alertam que data centers de IA podem, ao mesmo tempo, agravar o consumo de energia e água e pressionar metas climáticas. 

Água, energia e o risco de repetir velhos erros

Diante dessa corrida por data centers, o Brasil começa a se deparar com questões que outros países já vivem: é sustentável concentrar infraestrutura de alto consumo de energia e água em áreas urbanas densas ou regiões com histórico de crise hídrica?

Relatórios recentes apontam que, no mundo, boa parte dos data centers de IA utiliza água vinda justamente de regiões com estresse hídrico significativo. 

Algumas empresas, como a própria Scala, anunciam esforços para reduzir esse impacto, com data centers desenhados para ter Water Use Efficiency (WUE) igual a zero, utilizando sistemas de resfriamento a ar e prometendo dispensar o consumo de água em novas unidades — além de operar com 100% de energia renovável e certificada e buscar neutralidade de carbono. 

Mesmo nesses casos, o alerta ambientalista permanece: não se trata apenas da tecnologia de resfriamento, mas da soma de fatores — ocupação do território, necessidade de novas linhas de transmissão, impacto sobre o sistema elétrico, impermeabilização do solo e efeitos sobre microclimas urbanos.

O ponto central é que o Brasil se encontra, novamente, diante de uma encruzilhada clássica: precisa e deve buscar progresso econômico e tecnológico, mas não pode repetir o padrão histórico de crescer primeiro e só depois contabilizar os danos.

Braskem em Maceió: quando o desenvolvimento ignora limites

O desastre da Braskem em Maceió é um lembrete brutal do que acontece quando atividades econômicas de grande porte avançam sobre o território sem que os limites ambientais sejam respeitados.

Por décadas, a exploração de sal-gema pela petroquímica sustentou parte da economia local. Mas a extração inadequada e prolongada levou ao colapso de minas subterrâneas e ao afundamento do solo em pelo menos cinco bairros da capital alagoana — Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. 

O resultado é conhecido: mais de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas; algo entre 15 mil e 18 mil imóveis foram interditados ou se tornaram inabitáveis; bairros inteiros viraram uma espécie de cidade fantasma, com danos sociais, econômicos, ambientais e patrimoniais incalculáveis. 

Investigações e ações judiciais apontam que alertas sobre os riscos vinham sendo feitos por pesquisadores e órgãos técnicos há anos, mas foram minimizados ou insuficientemente considerados. Hoje, Maceió carrega cicatrizes profundas de um modelo em que a exploração de recursos naturais foi tratada como se o solo, literalmente, pudesse ser perfurado indefinidamente sem consequências. 

Ao citar o caso Braskem no contexto do debate sobre data centers, não se trata de igualar fenômenos distintos, mas de destacar o padrão: grandes empreendimentos, decisões de alto impacto e um sistema de licenciamento e controle muitas vezes capturado, lento ou complacente. O risco é repetir, na era da nuvem, a lógica que marcou a era da mineração e de tantos outros setores industriais: primeiro o lucro, depois o desastre, e por fim a conta social.

O agronegócio no Rio Grande do Sul: outro espelho do mesmo modelo

O exemplo recente do Rio Grande do Sul acrescenta uma camada importante a essa reflexão. Nas últimas décadas, o estado consolidou um modelo de agronegócio mecanizado e voltado à exportação — soja, trigo, arroz irrigado — que transformou radicalmente o uso do solo. Campos nativos e áreas de mata deram lugar a monoculturas, com forte uso de agrotóxicos, drenagem de banhados e eliminação de matas ciliares.

Essa reconfiguração da paisagem alterou o comportamento dos rios, a capacidade de infiltração da água no solo e a resiliência do território diante de eventos extremos. A compactação do solo, a perda de áreas úmidas e o assoreamento de cursos d’água deixaram o estado mais vulnerável a enchentes repentinas após chuvas intensas, ao mesmo tempo em que estiagens severas se agravaram em áreas já desmatadas.

Nos últimos 15 anos, o Rio Grande do Sul sofreu uma sequência de secas históricas, cheias devastadoras, ciclones extratropicais e ondas de calor fora de padrão. A ciência aponta o papel decisivo do aquecimento global, mas mostra também como o modelo de uso da terra amplifica os danos: quando o território perde sua capacidade natural de absorver e regular a água, cada evento extremo se transforma com mais facilidade em catástrofe.

Assim como em Maceió, o que se vê é a combinação de uma força global — a crise climática — com escolhas locais de desenvolvimento que reduziram a margem de segurança ambiental.

Progresso para quem, e a que custo?

A chegada e a expansão dos grandes data centers no Brasil fazem parte de um movimento global: digitalização da economia, IA em escala e dependência crescente de serviços em nuvem. É compreensível que governos e empresas vejam nisso uma oportunidade: empregos qualificados, arrecadação, integração a cadeias tecnológicas de ponta.

O problema não está em buscar progresso, mas em tratar o impacto ambiental como detalhe secundário. Quando se olha para Maceió e para o Rio Grande do Sul, a mensagem é clara: projetos que ignoram limites ecológicos podem gerar, anos depois, crises humanitárias, perdas irreparáveis e contas bilionárias pagas pela sociedade.

No caso dos data centers, o Brasil ainda tem tempo de fazer diferente. Isso significa:

•exigir transparência sobre consumo de energia e água desses empreendimentos;

•priorizar tecnologias de resfriamento que não dependam de grandes volumes de água, especialmente em regiões de risco hídrico;

•vincular incentivos fiscais a metas robustas de uso de energia renovável e eficiência;

•tratar licenciamento ambiental como etapa estratégica, não como obstáculo burocrático;

•ouvir, desde o início, cientistas, comunidades locais e organizações socioambientais.

O homem deve, sim, procurar o progresso. Mas se a história recente ensina alguma coisa, é que progresso que destrói a natureza acaba, cedo ou tarde, destruindo também as bases sociais e econômicas que pretendia fortalecer. Na economia da nuvem, assim como na mineração e no agronegócio, a escolha é sempre a mesma: crescer com limites — ou empurrar o limite até ele romper.