A cinebiografia Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, surge cercada de polêmicas que vão além do cinema e revelam seu caráter político e propagandístico. A escolha de Jim Caviezel e o enfoque messiânico na facada reforçam uma narrativa de martírio e redenção. Denúncias de uso indireto de recursos públicos, emendas parlamentares e irregularidades trabalhistas agravaram as críticas. Antes da estreia, o filme já simboliza a contradição entre o discurso moralista do bolsonarismo e suas práticas.
O QUE ACONTECEU
A cinebiografia “Dark Horse”, que se propõe a narrar a trajetória política de Jair Bolsonaro a partir da campanha de 2018, nasce envolta em controvérsias que extrapolam o campo estético e alcançam o terreno político, institucional e moral. Antes mesmo de chegar às salas de cinema, o filme já cumpre um papel central: o de peça de propaganda travestida de obra artística, construída para reforçar uma narrativa messiânica em torno de um personagem condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado.
A escolha de Jim Caviezel — ator identificado internacionalmente com papéis religiosos e com o conservadorismo militante nos Estados Unidos — não é casual. Ao escalar o intérprete de Jesus em A Paixão de Cristo para viver Bolsonaro, a produção reforça a associação simbólica entre martírio, sacrifício e redenção, especialmente a partir da reencenação da facada em Juiz de Fora. O atentado, tratado como evento fundador da “vitória do azarão”, é elevado a eixo dramático e político da narrativa, ainda que até mesmo setores do bolsonarismo tenham questionado a verossimilhança da cena revelada em teasers que rapidamente viraram memes nas redes sociais.
O roteiro, assinado por Cyrus e Mark Nowrasteh e baseado em material escrito pelo deputado federal Mario Frias, explicita a fusão entre cinema, militância ideológica e interesses políticos diretos. Frias não apenas colaborou com o texto e atua como produtor associado, como também interpreta, no filme, o médico responsável pela cirurgia de Bolsonaro após o atentado — um nível de autoindulgência narrativa raro mesmo em cinebiografias laudatórias. A obra, dirigida por um cineasta especializado em dramas religiosos e políticos de apelo conservador, caminha deliberadamente para o terreno da hagiografia.
Mas o ponto mais grave não está no que se vê na tela, e sim fora dela. Apesar de se apresentar como produção independente e de financiamento privado, reportagens apontam que a produtora responsável pelo longa recebeu mais de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo, sob contrato oficialmente destinado à oferta de internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda. A mesma estrutura teria sido beneficiada por R$ 2 milhões em emendas parlamentares do próprio Mario Frias. A contradição é evidente: setores que demonizam a Lei Rouanet e os incentivos culturais passam a operar, sem pudor, no uso indireto de recursos públicos para glorificar um aliado político.
Somam-se a isso denúncias de abusos trabalhistas, alimentação inadequada, cachês abaixo do padrão e agressões no set, investigadas pelo Sated-SP. O discurso da “liberdade” e dos “valores cristãos”, tão presente na divulgação do filme, contrasta com relatos de precarização do trabalho artístico e desrespeito a direitos básicos.
“Dark Horse” pode até alcançar status de curiosidade cult, como apontam profissionais do setor, pelo acúmulo de excessos estéticos e narrativos. Mas seu legado mais duradouro tende a ser outro: o de um filme que sangra recursos públicos, instrumentaliza a fé, confunde cinema com propaganda e expõe, de forma crua, a contradição entre o discurso moralista da extrema direita e suas práticas concretas quando ocupa o poder.