Em áudios, deputado Thiago Rangel dá ordens na Educação e negocia cargos para traficante, diz PF

Investigação da Polícia Federal liga Thiago Rangel a fraudes, lavagem de dinheiro e indicações de cargos para pessoas ligadas ao tráfico

A Polícia Federal identificou áudios e mensagens que apontam o deputado estadual Thiago Rangel como articulador de nomeações e decisões estratégicas na Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. Segundo a investigação da Operação Unha e Carne, o parlamentar também teria negociado cargos para pessoas ligadas ao traficante Arídio Machado da Silva Júnior. Preso preventivamente há 13 dias, Rangel é acusado de liderar um esquema de fraudes em contratos públicos, desvio de recursos e lavagem de dinheiro.

O que aconteceu

Mensagens e áudios obtidos pela Polícia Federal mostram que Thiago Rangel exercia influência direta sobre estruturas da Secretaria Estadual de Educação. As conversas fazem parte do inquérito da Operação Unha e Carne, que resultou na prisão preventiva do parlamentar por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

De acordo com a investigação, o deputado chefiaria um esquema de fraudes em contratos de obras e serviços da rede estadual de ensino, além de atuar em operações de lavagem de dinheiro envolvendo empresas e postos de combustíveis.

Entre os materiais analisados pela PF está um áudio enviado à então diretora regional de Educação do Noroeste Fluminense, Júcia Gomes de Souza Figueiredo, também presa na operação. Na gravação, atribuída ao parlamentar, ele afirma que era responsável pelas indicações políticas dentro da regional e determina que fosse informado sobre tudo o que acontecesse no órgão.

Segundo a PF, a mensagem demonstra uma relação de subordinação política entre Júcia e o deputado. Os investigadores afirmam que ela atuava como extensão operacional de Rangel dentro da Secretaria de Educação, exercendo função estratégica na administração de 57 escolas estaduais em 13 municípios do Norte e Noroeste Fluminense.

Outro trecho da investigação destaca uma transferência de R$ 100 mil da empresa VAR Construtora para a empresa E. H. Almeida de Souza Casas de Festas. Após o envio do comprovante, mensagens atribuídas a Júcia mencionam que parte do valor já havia sido enviada e o restante seria transferido depois. Para a PF, a movimentação reforça suspeitas de lavagem de dinheiro e circulação de recursos desviados de contratos públicos.

A investigação aponta ainda que a VAR Construtora mantinha contratos ligados a obras em escolas estaduais e não possuía funcionários registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o que, segundo os investigadores, aumenta os indícios de irregularidades.

As apurações também relacionam o deputado ao traficante Arídio Machado da Silva Júnior, apontado pela PF como integrante de alta periculosidade com antecedentes por homicídio e tráfico de drogas. Conversas extraídas do celular de Fábio Pourbaix Azevedo, considerado braço direito de Rangel, indicam que vagas de auxiliar de serviços gerais na área da Educação teriam sido reservadas para indicados do criminoso.

Segundo a investigação, o deputado informou possuir oito vagas disponíveis e determinou que uma delas fosse destinada a uma indicação de “Júnior do Beco”. Em um dos áudios analisados, uma mulher identificada como Gleice Maria Batista da Silva cobra uma nomeação prometida e afirma ser irmã do traficante.

As mensagens também mostram orientações sobre a organização dos nomes indicados para os cargos públicos. Em um dos áudios atribuídos ao parlamentar, ele orienta que os nomes ligados ao traficante fossem separados em blocos específicos.

Para a PF, os diálogos indicam uso político da estrutura da Educação, distribuição de cargos públicos para atender interesses pessoais e proximidade entre o parlamentar e pessoas ligadas ao tráfico. Os investigadores afirmam que essas conversas foram incluídas no relatório final para reforçar possíveis conexões entre o grupo investigado e crimes violentos.

A investigação revelou ainda uma planilha encontrada no computador de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. O documento listava órgãos sob influência política de deputados estaduais e novos cargos pretendidos.

Na planilha, Thiago Rangel aparece ligado ao Detran e ao IPEM de Campos, além de vagas na Assembleia Legislativa. Também havia referências a órgãos como Detro, Fundação Leão XIII, FIA e Secretaria Estadual de Trabalho.

Segundo a PF, o deputado teria utilizado influência sobre o IPEM em benefício de sua rede de postos de combustíveis. Os investigadores afirmam ainda ter encontrado indícios de corrupção ativa e passiva envolvendo fiscais do órgão.

A Assembleia Legislativa do Rio informou que o parlamentar permanece afastado por determinação do STF. A Alerj também exonerou assessores e integrantes do gabinete ligados ao deputado.

A defesa de Thiago Rangel afirma que ele é inocente, sustenta que as mensagens foram retiradas de contexto e nega envolvimento com organização criminosa ou contato ilícito com integrantes de facções. Já a Secretaria Estadual de Educação informou que realiza revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras de manutenção da rede estadual.