Prestes a completar 80 anos, José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e histórico dirigente do PT, prepara-se para uma nova fase de vida política e pessoal. Diz estar se cuidando mais — “fazendo exercícios e bebendo menos vinho” — e revela planos ambiciosos: lançar o segundo volume de sua autobiografia e disputar novamente uma vaga de deputado federal por São Paulo em 2026, a pedido do presidente Lula. A candidatura, afirma, será uma forma de “reparação” após prisões que considera injustas nos casos do mensalão e da Lava Jato. Ele falou à BBC News Brasil. A entrevista revela um José Dirceu que mistura pragmatismo político, nostalgia e misticismo. Ele se apresenta como sobrevivente — da ditadura, das prisões e das derrotas — e tenta reconstruir sua imagem como estrategista e militante coerente. Reafirma lealdade a Lula, defende alianças amplas e prega um reformismo social mais profundo. Ao mesmo tempo, mantém o tom combativo de sempre: desafia o sistema financeiro, critica a elite política e aponta o Congresso como obstáculo à transformação. Sua fala combina autodefesa e esperança. Aos 80 anos, José Dirceu quer voltar às urnas, movido pela convicção de que ainda tem papel a cumprir — e pela crença, como diz ele, de que “a história do Brasil ainda está sendo escrita”.
Veja um resumo:
Relação com Lula e papel político
Dirceu voltou neste ano à direção nacional do PT, mas diz encontrar Lula apenas ocasionalmente. Afirma que mantém com o presidente uma “relação telepática”, construída em décadas de convivência política. Rejeita a ideia de que Lula esteja isolado e diz que o presidente mantém diálogo com ministros e aliados, inclusive de centro-direita. Para Dirceu, o governo atual é de “centro-esquerda”, mas depende de uma base parlamentar ampla, o que exige alianças com o centrão. Ele defende essa pragmática: “Quem fez a aliança foi o eleitor”.
Sobre as eleições de 2026, Dirceu aposta na manutenção da chapa Lula-Alckmin, destacando o papel do vice na estabilidade política e na gestão econômica. “Alckmin mostrou que tem capacidade e representa setores importantes da sociedade”, diz. Ele avalia que São Paulo será o principal campo de batalha eleitoral e que o PT precisa apresentar nomes fortes para enfrentar Tarcísio de Freitas.
Memórias, clandestinidade e resistência à ditadura
O ex-ministro falou sobre seu passado na luta armada. Contou que passou dez anos sem dar notícias à família durante a ditadura militar e não se arrepende: “Era necessário. Quem desobedecia, morria ou era torturado”. Relatou que chegou a fazer cirurgia plástica e criar uma nova identidade — “Carlos Henrique Gouveia de Melo” — para sobreviver na clandestinidade. Comparou o processo a “criar um personagem de cinema”.
Dirceu disse que pretende tratar dessa fase com mais profundidade em seu próximo livro, mas evitou revelar detalhes: “Há fantasmas que não vale a pena ressuscitar”.
Prisões, mensalão e Lava Jato
José Dirceu foi preso cinco vezes: uma durante a ditadura, outra no mensalão e três vezes na Lava Jato. Ele reafirma que as condenações foram políticas e que pretende pedir revisão criminal ao Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, não há provas de corrupção nos autos e o julgamento se baseou na “teoria do domínio do fato”.
Sobre o mensalão, nega que tenha havido compra de votos no Congresso e afirma que o dinheiro envolvido era “caixa dois eleitoral, não corrupção”. “Não houve mensalão”, insiste. Dirceu sustenta que o objetivo da acusação foi “retirá-lo da vida pública” e enfraquecer o PT.
Questionado se o partido errou, respondeu: “Erros sempre há, mas da minha parte não há nada nos autos que justifique condenação”. Ele recorda que Lula, em 2005, pediu desculpas ao país, mas apenas por haver caixa dois.
Prisão e convivência com Valdemar Costa Neto
Dirceu revelou detalhes de sua convivência com Valdemar Costa Neto, atual presidente do PL, durante o período em que estiveram presos. Chamou o ex-aliado — e hoje líder da direita bolsonarista — de “o político mais hábil da direita brasileira”. Contou que os dois chegaram a se desentender na prisão porque Dirceu queria consertar lâmpadas e ler, enquanto Valdemar só pensava em sair. “Felizmente ele saiu antes, mas eu estava certo: fiquei e tive que lutar por melhores condições.”
Dirceu reconhece as habilidades políticas de Valdemar: “É leal a Bolsonaro, comanda o partido e nunca teve rebelião no PL. É um dos quadros mais qualificados da direita”.
Sobre Bolsonaro e o sistema prisional
O ex-ministro considera justo que o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpra eventual pena em regime domiciliar, citando o estado de saúde e a falta de autocontrole do ex-mandatário: “Ele não tem condições de ir para o sistema penitenciário. Seria uma prisão especial, como a de Collor. O sistema é dominado pelo crime organizado”. Dirceu diz não desejar mal a Bolsonaro, mas acredita que ele “não sobreviveria” numa prisão comum.
Criticou, porém, o comportamento da direita diante das condenações de 8 de janeiro: “Durante anos, aplaudiram o aumento das penas. Agora querem diminuir para quem destruiu os Três Poderes”.
Economia, juros e reforma tributária
Dirceu vê na reforma tributária o caminho essencial para o país crescer e reduzir desigualdades. Defende um modelo “nos moldes da OCDE” e critica o sistema atual, que considera “um mecanismo de concentração de renda”. Para ele, os juros altos são “uma armadilha que torna a dívida insolúvel” e refletem o poder do setor financeiro sobre o Banco Central.
Acredita que há consciência crescente na sociedade sobre a necessidade de taxar os mais ricos e vê nisso uma mudança profunda no país: “Antes era proibido dizer que os ricos não pagavam imposto. Hoje é senso comum”.
Defende também a reforma política, com voto em lista partidária, e diz que o “grito de guerra” deve ser “mudar o Congresso Nacional”.
Trabalho, juventude e novos movimentos sociais
O ex-ministro demonstrou otimismo com o surgimento de novas lutas trabalhistas e sociais. Elogiou a campanha pela jornada 6x1 — que reduz o número de dias de trabalho — liderada pela deputada Erika Hilton (PSOL), e afirmou que o PT já havia apoiado propostas semelhantes no passado.
Dirceu argumenta que a nova classe trabalhadora — motoboys, entregadores e trabalhadores de aplicativos — não é conservadora, como muitos dizem. “Eles pararam São Paulo três vezes, exigindo proteção previdenciária e de saúde”, lembra. Critica, no entanto, a precarização do trabalho e a falta de qualificação profissional: “Não falta mão de obra por causa do Bolsa Família, mas por causa dos salários e das condições”.
Religião, conservadorismo e juventude evangélica
O ex-guerrilheiro se mostrou pragmático ao falar sobre o crescimento evangélico no país. Disse que um terço dos evangélicos vota no PT e que o partido precisa ampliar o diálogo com esse público. Sua própria filha mais nova é evangélica, o que, segundo ele, o ajuda a compreender melhor essa realidade.
Para Dirceu, o problema não é religioso, mas de agenda política: “Os evangélicos apoiam armas, escola sem partido e negação da vacina? Nós não apoiamos. É uma diferença de visão de mundo”. Ele acredita que há uma nova geração de jovens evangélicos “completamente diferente do bolsonarismo”, conectada à cultura urbana e à música.
Política nacional e relação com os EUA
Dirceu defende a soberania nacional e critica as políticas comerciais dos Estados Unidos. Comparou Donald Trump a George W. Bush, com quem Lula manteve bom diálogo no passado. “Falta Trump se comportar como Bush”, ironizou.
Para ele, a postura americana recente — especialmente em relação ao “tarifaço” — é politicamente motivada. Argumenta que o Brasil tem força econômica para resistir: “Os EUA consomem cinco bilhões de hambúrgueres por ano. E o blend da carne é brasileiro. Não há substituto”.
Dirceu considera que o alinhamento de Bolsonaro com Trump prejudica o país: “Colado na imagem de Trump e nos interesses norte-americanos, ninguém ganha eleição no Brasil. Historicamente, nunca aconteceu”.
Sobre Palocci e a delação premiada
O ex-ministro demonstrou emoção ao falar do rompimento com Antônio Palocci, de quem foi amigo íntimo. Disse que nunca mais falou com ele desde que o ex-ministro fez delação premiada em 2018. “Éramos quase irmãos. Eu jamais faria delação. Preferia morrer a delatar companheiros.”
Dirceu evita julgá-lo: “Não sei a que tipo de tortura psicológica ele foi submetido. Mas não o julgo. Ele fez, assumiu as consequências. É covardia julgar”.
Emendas parlamentares e financiamento político
Para Dirceu, o maior problema atual da política brasileira não é mais o caixa dois, mas as emendas parlamentares. “São R$ 52 bilhões que viram poder econômico nas eleições e fonte de corrupção”, alerta. Critica o Congresso por se recusar a rever o tema e vê nisso “uma invasão das atribuições do Executivo”.
Candidatura e legado
Dirceu confirma que será candidato a deputado federal por São Paulo, a pedido de Lula, e diz que busca “reparação e justiça”. Rebate críticas de que sua presença prejudicaria a imagem do PT: “As pesquisas mostram que tenho público além do partido. Sou um construtor de alianças”.
Afirma que não disputará o Senado porque há outros nomes, como Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Marina Silva e Tabata Amaral. E ironiza as dificuldades de vencer no maior estado do país: “São Paulo não é para amador. O PT já ganhou o Senado três vezes e governou a cidade três. Tá bom demais.”