Por Luiz Nassif, jornalista no GGN
O jogo do Ministro André Mendonça parece claro.
A primeira jogada foi autorizar a quebra do sigilo bancário de Fábio Luiz, o Lulinha. A suspeita é de ligação com o tal “careca do INSS”. Detalhe: a investigação autorizada por Mendonça é sobre o Banco Master. Mas pouco importa.
A segunda jogada foi mostrar poder, chamando a atenção do Procurador-Geral da República no despacho que mandou Daniel Vorcaro para a prisão.
A lógica é a mesma da Lava Jato 1, implementada pelo DHS, o Gabinete de Segurança Interna dos EUA. Tem que mostrar ser a autoridade absoluta, para dobrar o suspeito e conseguir dele a delação que interessa aos investigadores. Ou seja, não é uma tarefa que não admite o chamado devido processo legal.
Finalmente, abrir a torneira dos vazamentos. Ontem, vários veículos, vários repórteres já divulgavam notícias exclusivas, vazadas pela força tarefa da Polícia Federal. Inclusive a inacreditável manchete do Metrópoles sobre os R$ 19 milhões de movimentação bancária de Lulinha ao longo de 4 anos, somando depósitos e saques para criar volume e deixando de informar sobre a venda da Gamecorp.
Tem-se, em uma ponta, um fanfarrão barra pesada, Daniel Vorcaro. As mensagens no celular – para pegar Lauro Jardim – são pura fanfarronice, que nem o próprio Lauro deve ter levado a sério. Mas serviu de álibi para prender Vorcaro, corrigindo, aliás, o erro inicial, que foi a sua liberação anterior.
Logo em seguida, vem o inacreditável: o suicídio do tal Sicário, na sede da Polícia Federal onde estava detido, levantando a suspeita fortíssima de queima de arquivo.
Em todos esses dias, não houve um vazamento sequer sobre governadores do Centrão, sobre Ibanez. Chegou-se a dois funcionários do Banco Central, cooptados por Vorcaro na gestão Roberto Campos Neto. Espera-se que, ao menos, levantem como um sujeito indiciado pela polícia conseguiu autorização do BC, na gestão Campos Neto, para adquirir o Banco Máxima, que depois virou Master.
Mas a Lava Jato 2 não encontrará as mesmas facilidades da Lava Jato 1. De um lado, a maioria dos suspeitos pertence à banda política de André Mendonça, a mistura de Centrão e Bolsonarismo. Não dá para tapar o sol com a peneira. De outro, Brasília não é Curitiba e, na mídia, não há mais a mesma unanimidade vergonhosa que marcou a cobertura da Lava Jato.
Mas a capacidade de produzir estragos é grande. Ontem dei o exemplo da quantidade de matérias suscitadas pela quebra do sigilo bancário de Lulinha, em contraposição à ausência total de denúncias contra Flávio Bolsonaro, que está no centro das atenções, por se consolidar como candidato da direita.
Enquanto o inquérito corre, os vazamentos ocorrem, a mídia aposta as fichas em uma figura intrinsecamente ligada às milícias cariocas, o país espera uma nesga de esperança para escapar da tragédia política.
Mídia ligou o modo Lava Jato em apoio a Flávio Bolsonaro
Conforme já havia alertado, começou o jogo do lavajatismo midiático, com vistas às eleições. Por exemplo, o caso de Lulinha com o tal “careca do INSS”. Lulinha tem relações de amizade com uma aventureira, Roberta Luchesinger, que se apresentava como herdeira do Credit Suisse. Roberta se apresenta aos lobistas como amiga da família e se especializou em vender vento. Convenceu o careca de que Lulinha poderia facilitar a venda de cannabis para o Ministério da Saúde.
Levou Lulinha para Portugal, para mostrar um galpão onde, segundo ele, está preparando a plantação de cannabis. Lulinha foi, voltou, e não fechou nenhum negócio. Primeiro, porque não teria entrada alguma no Ministério da Saúde. Segundo, por ser gato escaldado e não se expor em nenhum contrato. Acabou a história.
Aí a CPI do INSS convoca Lulinha e a Polícia Federal pede a quebra de seu sigilo. O resultado é uma enxurrada de manchetes ligando o nome de Lulinha ao careca. E, perdido no meio das manchetes, a reportagem com a secretária do careca afirmando não ter feito qualquer pagamento a Lulinha.
É assim o jogo. Por exemplo, repórteres devem ter investigado se em algum momento Lulinha estava no Ministério da Saúde. Se investigaram nada encontraram, se nada encontraram, seria notícia. Foi mau jornalismo não apurarem se as visitas ocorreram ou não noticiarem, se apuraram e nada encontraram.
Pouco importa, nas redes sociais e para a maioria dos leitores o que importa é a manchete, a associação do nome Lulinha ao do careca.