Donald Trump prepara terreno para questionar eleições do Brasil

Segundo o Washington Post, Trump pretende enviar ao Brasil dois funcionários para uma missão que poderá levantar dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes das eleições presidenciais

Segundo reportagem publicada pelo Washington Post, a administração do presidente Donald Trump pretende enviar ao Brasil dois altos funcionários do Departamento de Estado — Riley M. Barnes e Samuel Samson — para uma missão que poderá levantar dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes das eleições presidenciais de 4 de outubro. Embora o Departamento de Estado tenha confirmado a viagem, não informou oficialmente quais serão os objetivos da missão.

Autoridades ouvidas pelo jornal afirmam que os emissários deverão questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras, utilizadas desde 1996 e submetidas, ao longo desse período, a sucessivos testes públicos de segurança e ao acompanhamento de missões nacionais e internacionais de observação eleitoral. Integrantes do governo brasileiro avaliam que os representantes americanos poderão reunir-se com críticos do sistema de votação e produzir um relatório destinado a lançar dúvidas sobre a credibilidade das eleições. Diplomatas brasileiros classificaram a iniciativa como incompatível com a relação entre duas democracias soberanas, e o governo estuda medidas para impedir a entrada da delegação caso fique caracterizada uma tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro.

Se a reportagem do Washington Post estiver correta, o episódio representa mais do que um atrito diplomático: configura uma tentativa de um governo estrangeiro de influenciar o debate sobre a legitimidade de uma eleição em outro país. Trata-se de uma atitude que contraria o princípio da soberania nacional e reforça um discurso já utilizado por setores políticos brasileiros que questionam, sem comprovação, a segurança das urnas eletrônicas.

Essa possível iniciativa não surge isoladamente. Donald Trump construiu sua trajetória política marcada por uma postura intervencionista em relação aos assuntos internos de outros países. Ao longo de seus mandatos e campanhas, pressionou governos aliados e adversários, aplicou sanções econômicas com forte impacto político, apoiou tentativas de mudança de regime em países como Venezuela, endureceu posições contra Cuba e Irã, transferiu a embaixada americana para Jerusalém, interferindo em uma das questões mais delicadas do Oriente Médio, e frequentemente procurou influenciar decisões de organismos internacionais. Em diversas ocasiões, a política externa americana foi utilizada como instrumento de disputa ideológica e eleitoral, frequentemente em descompasso com o respeito à soberania de outras nações.

Essa postura ajudou a ampliar tensões diplomáticas em diferentes regiões do mundo e consolidou a imagem de um presidente disposto a projetar o poder dos Estados Unidos para além de suas fronteiras sempre que julgasse conveniente. Seus apoiadores interpretam essa estratégia como uma defesa firme dos interesses americanos. Seus críticos, porém, enxergam nela uma política de ingerência que enfraquece instituições democráticas e amplia conflitos internacionais. Caso a missão ao Brasil tenha realmente o objetivo de questionar o sistema eleitoral brasileiro, será apenas mais um capítulo de uma prática que se tornou uma das marcas da atuação política de Donald Trump: a disposição de interferir em assuntos que pertencem exclusivamente à soberania de outros países.