Direita fragmentada: vaidades, desconfianças e o fim de uma frente unificada contra Lula

O resultado é um cenário de dispersão e desorientação na direita. O que nasceu como tentativa de reconstruir um polo conservador terminou em disputa por holofotes e perda de foco

A tentativa de construir uma frente unificada entre governadores e lideranças da direita para enfrentar o governo Lula desmoronou antes mesmo de ganhar corpo. O projeto, lançado em agosto com promessas de coordenação política e encontros regulares, foi engolido por vaidades, desconfianças internas e pela ausência de uma liderança capaz de substituir Jair Bolsonaro, condenado e inelegível até 2030.

A hesitação do ex-presidente em apontar um sucessor e as divergências entre seus aliados diretos travaram o movimento. Enquanto isso, Lula reorganizou sua base, recuperou popularidade e voltou à ofensiva com o Congresso mais alinhado. Nas ruas, manifestações contra a anistia a Bolsonaro e a chamada PEC da Blindagem reacenderam a militância de esquerda. O contraste enfraqueceu a narrativa da oposição unificada e deixou a direita sem coordenação nacional.

O encontro de 7 de agosto, na casa do governador Ibaneis Rocha, simbolizou o auge e a derrocada do projeto. Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG) e Ratinho Jr. (PR) — os quatro principais presidenciáveis da direita — não conseguiram alinhar uma estratégia comum. Ambições regionais e choques de ego tornaram inviável a formação de uma frente coesa. O estopim da crise veio quando Ciro Nogueira (PP-PI) excluiu Caiado da lista de nomes viáveis para receber apoio de Bolsonaro, provocando reação furiosa do goiano, que o chamou de “quase ex-senador” e prometeu disputar o Planalto em 2026, mesmo que precise mudar de partido.

Caiado já conversa com Solidariedade e Podemos em busca de legenda, repetindo o movimento que fez em 1989, quando trocou de sigla para disputar sua primeira eleição presidencial. Do outro lado, Ciro articula ser vice numa chapa encabeçada por Tarcísio ou Ratinho Jr., mas enfrenta resistência interna e dificuldades no Piauí, onde sua popularidade é minada pela boa avaliação do governador Rafael Fonteles (PT).

Enquanto isso, o governador paulista vive um verdadeiro “inferno astral” político. Sua tentativa de equilibrar a imagem de gestor técnico com o bolsonarismo tem resultado em tropeços sucessivos. Tarcísio perdeu pontos ao se omitir diante das tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil e ao adotar discurso radical no ato de 7 de Setembro, atacando o ministro Alexandre de Moraes. Soma-se a isso o fracasso nas articulações em Brasília pela anistia aos golpistas de 8 de Janeiro e a crise da segurança pública paulista, agravada pelo assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes.

A gestão também enfrenta o desgaste da “crise do metanol” e do pedágio free flow, alvo de rejeição nas redes sociais. Suas declarações infelizes — como a de que “só se preocuparia quando começassem a falsificar Coca-Cola” — alimentaram críticas e comparações com o deboche de Bolsonaro durante a pandemia. O resultado é um isolamento político crescente, inclusive entre aliados bolsonaristas.

Nesse vácuo, Ratinho Jr. desponta como alternativa mais pragmática. Amparado por Gilberto Kassab e pelo PSD, o governador paranaense costura apoios discretos no empresariado e no mercado financeiro. Com perfil privatista e ampla estrutura de mídia herdada do pai, o apresentador Ratinho, ele pode transformar o Sul do país em sua base de lançamento.

Zema, por sua vez, mantém postura discreta, mas avalia disputar a Presidência mesmo sem apoio formal do bolsonarismo. A indefinição favorece a fragmentação: sem Bolsonaro, o campo conservador se divide entre projetos pessoais e cálculos regionais.

A aproximação recente entre Lula e Donald Trump, vista como improvável meses atrás, ainda contribuiu para o enfraquecimento simbólico da oposição. A mudança de tom do ex-presidente americano, elogiando Lula e defendendo cooperação comercial, desmoralizou o discurso de setores bolsonaristas que o tratavam como ídolo.

O resultado é um cenário de dispersão e desorientação na direita. O que nasceu como tentativa de reconstruir um polo conservador terminou em disputa por holofotes e perda de foco.