Na semana em que o Brasil celebra o Dia dos Pais, a tradicional data de visitas em presídios ganha contornos irônicos e politicamente sensíveis. Enquanto filhos por todo o país se preparam para visitar seus pais, os filhos de Jair Bolsonaro poderão fazer o mesmo — mas em circunstâncias pouco usuais. O ex-presidente, atualmente em prisão domiciliar em Brasília e monitorado por tornozeleira eletrônica, deverá passar a data ao lado de parte da família.
A exceção é o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se encontra nos Estados Unidos e, segundo informações de bastidores, evita pisar em solo brasileiro sob o risco de ser preso por supostos crimes ligados à tentativa de golpe de Estado — enquadrados como traição à pátria, crime com pena severa.
A situação ganha contornos ainda mais paradoxais quando se observa a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho de Jair. Ele é autor de um projeto de lei que propõe o fim da chamada “saidinha” para presos em datas comemorativas, como o Dia dos Pais — um dos poucos benefícios mantidos no sistema penitenciário brasileiro, com objetivo de ressocialização.
Nas redes sociais, em 2019, Flávio criticou duramente o benefício:
“Quem o condenado visitará no saidão de Dia dos Pais? Essa aberração precisa acabar, o Brasil não aceita mais. Por isso, assumi a relatoria de um projeto que põe fim ao benefício nesses casos. Vamos moralizar o sistema penitenciário.”
No vídeo que acompanha a publicação, o senador afirma:
“Nesse final de semana, comemoramos o Dia dos Pais e, para a indignação de todos nós, milhares de presos vão exercer o seu benefício do saidão. Grande parte, certamente, não retornará para as cadeias e vão voltar a praticar violentos crimes contra a sociedade ordeira.”
O projeto de lei é voltado, principalmente, a presos condenados por crimes contra os próprios pais. No entanto, como é comum no Congresso Nacional, o texto poderia ser modificado por adendos e emendas que ampliem seu escopo, restringindo o benefício para a totalidade dos detentos — o que incluiria, por exemplo, casos como o do próprio Jair Bolsonaro.
Atualmente, apesar da tornozeleira eletrônica e das restrições de mobilidade, o ex-presidente está autorizado a receber visitas. Ainda assim, a imagem de um ex-chefe de Estado celebrando o Dia dos Pais em prisão domiciliar — mesmo em uma residência com piscina e estrutura privilegiada — marca um novo e simbólico capítulo de sua trajetória política e jurídica.
Bolsonaro é alvo de diversas investigações e responde por crimes que, somados, podem resultar em penas superiores a 40 anos de prisão — o equivalente a 43 Dias dos Pais longe da liberdade. A situação, além de jurídica, torna-se emblemática: em pleno Dia dos Pais, a ironia não passou despercebida.