Depois de Deltan Dallagnol e Andréia Sadi, chegou a minha vez de montar meu próprio “power point”. E digo logo de saída: quero ver as Organizações Globo me desmentirem. Porque o que está em jogo aqui não é apenas um caso isolado, mas um padrão histórico de construção de narrativas que atravessa décadas da comunicação brasileira.
Começo pelo episódio mais recente, que me levou a escrever este texto: a apresentação exibida na GloboNews sobre o caso Daniel Vorcaro. O formato, inspirado em exposições visuais que simplificam e direcionam interpretações, buscou associar figuras do PT, especialmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao escândalo. Ao mesmo tempo, nomes centrais de períodos anteriores — como Jair Bolsonaro, Roberto Campos Neto e Tarcísio de Freitas — apareceram de forma periférica ou simplesmente ficaram fora do enquadramento.
Não se trata de um erro isolado. Trata-se de escolha editorial. E escolha editorial, em um grupo de mídia com o peso da Globo, é também escolha política.
Esse padrão não é novo. Ao longo da história, a Globo acumulou episódios que ajudam a entender como a informação pode ser moldada de acordo com interesses.
Volto a 1982, ao caso Escândalo da Proconsult. Naquele momento, houve uma tentativa de manipular a apuração das eleições no Rio de Janeiro, prejudicando Leonel Brizola. A Globo divulgou números distorcidos antes da correção oficial. O episódio não apenas marcou a redemocratização, como deixou uma ferida aberta sobre o papel da emissora naquele processo.
Dois anos depois, em 1984, durante o movimento Diretas Já, assistimos a outro momento emblemático. Um dos maiores comícios da história, em São Paulo, foi tratado pela emissora como se fosse apenas uma comemoração do aniversário da cidade. A política foi apagada da narrativa. E apagar também é uma forma de manipular.
Em 1989, na eleição presidencial, a edição do Jornal Nacional sobre o debate entre Fernando Collor e Lula entrou para a história como exemplo clássico de enquadramento favorável. Não foi o que aconteceu no debate que importou, mas como ele foi mostrado ao público.
E há ainda episódios simbólicos, mas reveladores, como manchetes econômicas que classificavam direitos trabalhistas — como o 13º salário — como prejudiciais ao país. Não se trata apenas de opinião: trata-se de construção de agenda.
Na campanha de 2010, vi outro exemplo claro de como narrativas podem ser infladas ou distorcidas. O então candidato José Serra foi atingido durante um ato de campanha. Inicialmente, parte da cobertura sugeriu algo mais grave, até mesmo a possibilidade de um objeto contundente ou cortante. Depois, as imagens mostraram o que de fato ocorreu: uma simples bolinha de papel.
Se não fosse a atuação de veículos independentes e da chamada mídia progressista, aquela versão inicial poderia ter se consolidado como verdade. O episódio virou símbolo de como a checagem — ou a falta dela — pode alterar completamente a percepção pública.
Volto, então, ao tal “power point”. Em 2016, Deltan Dallagnol apresentou um slide que colocava Lula no centro de um suposto esquema de corrupção. Aquilo foi amplamente repercutido. Anos depois, a Justiça reconheceu excessos e o próprio Dallagnol foi condenado a indenizar o presidente.
Agora, vejo o mesmo recurso reaparecer no jornalismo televisivo. E me pergunto: mudou o método ou apenas mudou o apresentador?
Não ignoro que toda empresa de comunicação tem linha editorial. Isso é parte do jogo democrático. Mas quando essa linha passa a interferir de forma recorrente no enquadramento dos fatos — destacando uns, omitindo outros, ampliando versões frágeis e silenciando contextos —, o problema deixa de ser editorial e passa a ser estrutural.
A Globo é, sem dúvida, o maior grupo de mídia do país. E justamente por isso, carrega uma responsabilidade proporcional ao seu tamanho.
O que tento fazer aqui, ao montar este “power point”, é expor um padrão. Um padrão que atravessa décadas, governos e contextos distintos, mas que mantém uma lógica semelhante: a disputa pela narrativa.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples — e incômoda: a Globo informa ou constrói versões?