Uma denúncia apresentada em novembro de 2024 pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a também deputada Duda Salabert (PDT-MG) à Polícia Federal, por suposto desvio de recursos do fundo eleitoral, está sendo agora associada a um grupo investigado pela Operação Rejeito — investigação da PF que já levou à prisão de 22 pessoas envolvidas em um esquema bilionário de corrupção no setor de mineração em Minas Gerais. Empresários, políticos e servidores públicos estão entre os detidos.
Documentos da PF, como interceptações telefônicas e relatórios anexados ao inquérito, revelam que integrantes do grupo investigado alimentaram com informações a denúncia apresentada por Nikolas. A ofensiva contra Duda teria começado após ela enviar um ofício à Agência Nacional de Mineração (ANM), em julho de 2023, pedindo a fiscalização e a paralisação imediata das atividades minerárias na Serra do Curral, um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte. O documento citava diretamente empresas como Gute Sicht e Fleurs Global, ligadas ao grupo investigado.
O ofício foi repassado por Guilherme Santana Lopes Gomes, então diretor de procedimentos minerários da ANM, ao ex-deputado estadual João Alberto Paixão Lages (MDB), segundo mostram prints de conversas obtidos pela PF. Ambos estão presos preventivamente. A Polícia aponta que Gomes fornecia informações privilegiadas à organização criminosa, enquanto Lages atuava como articulador político para defender os interesses do grupo.
Duda Salabert virou alvo após denunciar mineração irregular
Duda Salabert, mulher trans, ambientalista e uma das principais vozes em defesa da Serra do Curral, virou alvo direto do grupo investigado. Desde dezembro de 2022, interceptações telefônicas mostram o empresário Gilberto Henrique Horta de Carvalho — também preso — atacando a deputada. Em mensagens, ele a tratava de forma pejorativa e demonstrava incômodo com sua atuação política contra a mineração.
Carvalho é apontado como operador do esquema criminoso. Ele teria atuado como lobista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, tentando barrar projetos de proteção ambiental, como o PL 1449/23 da deputada Beatriz Cerqueira (PT). Em conversa com João Lages, por exemplo, Carvalho sugeriu atrasar a tramitação do projeto pedindo vista no gabinete do deputado Bruno Engler (PL).
Muito próximo de lideranças da direita, Carvalho já atuou como assessor de políticos do PL e recebeu apoio público de nomes como o deputado Nikolas Ferreira, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), durante sua candidatura à presidência do Crea-MG.
A defesa de Carvalho não respondeu aos questionamentos da reportagem. O texto será atualizado caso haja manifestação.
Denúncia foi baseada em informações fornecidas por investigados
Segundo investigação da ONG Repórter Brasil, o assessor jurídico de Nikolas, Thiago Rodrigues de Faria, confirmou que foi ele quem redigiu a denúncia contra Duda, com base em informações recebidas de João Alberto Lages, hoje preso na Operação Rejeito. Faria sustenta, no entanto, que não há qualquer relação entre o gabinete de Nikolas e o grupo investigado.
“O João Alberto Lages nos encaminhou essas informações, como outros fazem. Achei estranho o conteúdo e protocolei junto à PF. Isso não tem nada a ver com atender a interesses de grupo”, disse o advogado. Ele afirmou ainda que recebe denúncias de todo o país e as encaminha quando vê indícios de irregularidade.
Faria admitiu também que conhecia Gilberto Carvalho por meio de eventos da direita e que já intermediou a venda de direitos minerários da empresa Topázio Imperial Mineração — transação atualmente investigada pela PF. Ele nega qualquer irregularidade e diz que sua atuação foi legal e documentada.
Atualmente, Faria ocupa o cargo de assessor jurídico no gabinete de Nikolas, com salário de R$ 17,2 mil, e afirma estar tranquilo quanto às investigações.
Escalada de ataques culminou na denúncia
A movimentação contra Duda se intensificou em outubro de 2024. Segundo a PF, Gilberto Carvalho repassou ao delegado Rodrigo Teixeira — ex-superintendente da PF em Minas e hoje preso — prints com supostos gastos de campanha da deputada. "Duda Salabert recebeu R$ 8 milhões para a campanha e gastou R$ 5 milhões somente com a empresa desse ex-assessor. Coincidência, né?", escreveu Carvalho. O delegado respondeu: “Vai ter que explicar a coincidência…”
A denúncia foi então protocolada por Nikolas em 14 de novembro de 2024, acusando Duda de desviar mais de R$ 5 milhões do fundo eleitoral. Ela negou as acusações, afirmou que todas as contratações foram legais e que suas contas de campanha foram aprovadas pela Justiça Eleitoral. A denúncia foi noticiada por veículos como Rádio Itatiaia, Metrópoles e O Globo.
Mesmo após o protocolo, o grupo investigado seguiu acompanhando o caso. Interceptações mostram que João Lages enviou o número do protocolo ao delegado Teixeira e chegou a acionar outro delegado da PF, primo seu, que comentou: “Bom demais! Pena que o chefe da Delinst é petista”.
Rivalidade política e histórico de confrontos
Nikolas Ferreira e Duda Salabert iniciaram juntos suas trajetórias políticas na Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 2020. Duda foi a vereadora mais votada da história da capital mineira, enquanto Nikolas ficou em segundo lugar. Em 2022, ambos foram eleitos deputados federais.
Desde o início, os dois protagonizam embates frequentes. Duda chegou a vencer ações judiciais contra Nikolas, como o processo em que o parlamentar se recusou a usar pronomes femininos ao se referir à colega.
Em 2024, Duda disputou a Prefeitura de Belo Horizonte, ficando em 5º lugar. Nikolas, por sua vez, manteve sua projeção como um dos principais nomes da direita no país.
Duda ainda não se manifestou
A deputada Duda Salabert ainda não se pronunciou sobre os novos desdobramentos da investigação. O espaço permanece aberto para manifestação. A reportagem será atualizada caso ela envie um posicionamento.
Veja a troca de mensagens do grupo criminoso que teria servido de base para a denúncia de Nikolas: