De Marcola a Bolsonaro: o cangaço moderno que mata e corrompe

Nikolas Ferreira finge não saber que o mal que Bolsonaro proporciona é o mesmo que Marcolla

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) voltou a recorrer às redes sociais para defender Jair Bolsonaro (PL), desta vez após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de reforçar o policiamento no entorno da residência do ex-presidente, em Brasília. “Monitorar os chefes do tráfico que continuam mandando dentro da cadeia? Não. Mas mobiliza todo o aparato estatal, com seu dinheiro, pra monitorar o rival político que nunca foi condenado por nenhum crime na vida. Canalhas”, escreveu o parlamentar, em tom de indignação.

A fala de Nikolas, no entanto, omite que a medida não partiu de uma perseguição política, mas sim de recomendação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Em manifestação, o órgão apontou risco de fuga de Bolsonaro, evidenciado em investigações da Polícia Federal, e sugeriu vigilância permanente. Moraes acatou o pedido.

Bolsonaro e Marcola: trajetórias que revelam a degradação

O discurso de Nikolas Ferreira tenta estabelecer uma equivalência entre Bolsonaro e vítimas de suposta perseguição política. Mas, ao contrário do que sustenta, as trajetórias do ex-presidente e de figuras do crime organizado, como Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, revelam mais semelhanças do que diferenças no impacto sobre a sociedade.

Marcola, apontado como líder máximo do PCC, carrega um histórico de crimes que inclui assassinatos, assaltos e a articulação de chacinas encomendadas de dentro das prisões. O criminoso consolidou um império paralelo com base na violência, no tráfico e na corrupção de instituições públicas.

Bolsonaro, por sua vez, embora eleito democraticamente, foi responsável por um governo marcado por negligência e omissão. Sob sua condução, mais de 700 mil brasileiros morreram de Covid-19, em grande parte agravados pela recusa sistemática do governo em adotar políticas de prevenção, a promoção de remédios ineficazes e a resistência em comprar vacinas a tempo.

O crime e o patrimônio

Marcola acumulou poder e fortuna a partir de roubos e do tráfico internacional de drogas. Seu nome está diretamente associado a esquemas milionários de lavagem de dinheiro, construídos sobre sangue e violência.

Já a família Bolsonaro, longe do universo do tráfico, mas próxima de práticas de corrupção, protagoniza episódios de enriquecimento controverso: imóveis comprados em dinheiro vivo, esquemas de rachadinha revelados em gabinetes parlamentares, joias recebidas da Arábia Saudita e não declaradas, além de cheques depositados na conta da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Todos esses elementos compõem um mosaico que desmente a narrativa de integridade repetida por seus aliados.

Nikolas e o jogo das palavras

Ao se colocar como escudo retórico de Bolsonaro, Nikolas Ferreira desempenha o papel de orador inflamado, mas sem compromisso com a realidade dos fatos. Sua estratégia é reduzir casos graves a slogans de redes sociais, onde frases de efeito rendem aplausos instantâneos, mas não respondem às perguntas centrais: por que Bolsonaro insiste em se comportar como réu da própria história? Por que sua família acumulou patrimônio incompatível com a vida pública?

Ao fim, a defesa de Bolsonaro por Nikolas não passa de uma tentativa de naturalizar o que não pode ser normalizado. Pois, se Marcola e o PCC corroeram o Estado pela violência direta, a família Bolsonaro o fez pela política e pela corrupção disfarçada de patriotismo. Ambos, cada um à sua maneira, representam faces distintas de um mesmo mal que atinge o Brasil.

Como já alertava Luiz Gonzaga em "Lampião Falou", o mito do rei do cangaço encerrou-se oficialmente em Angico, mas a violência que ele representava apenas mudou de forma e de vestimenta. Se antes eram chapéus de couro e bacamartes no sertão, hoje o cangaço veste terno, ocupa gabinetes, circula com joias e influência política, controlando fortunas e vidas. O crime organizado não acabou: continua de gravata e jaquetão, sem usar chapéu de couro, sem bacamarte na mão, e matando muito mais.