Damares x Malafaia: disputa pelo poder evangélico político

Conflito expõe rachas e sucessão na direita evangélica

O embate entre Damares Alves e Silas Malafaia ultrapassa ofensas religiosas e revela uma disputa política pelo controle do eleitorado evangélico de extrema direita. Com Bolsonaro enfraquecido, lideranças brigam por influência, hegemonia regional e protagonismo nacional.

O que aconteceu

A troca de acusações entre a senadora Damares Alves e o pastor Silas Malafaia ganhou repercussão ao evidenciar fissuras no campo evangélico alinhado à extrema direita. O conflito começou quando Damares mencionou a existência de pastores envolvidos em irregularidades no INSS sem citar nomes. Malafaia reagiu, acusando-a de leviana e de lançar suspeitas genéricas sobre o meio evangélico. Em resposta, Damares afirmou que o pastor estaria “endemoniado”, usando um termo de forte carga simbólica no universo religioso.

O episódio revelou uma disputa que vai além da retórica teológica. Malafaia, historicamente influente no Rio de Janeiro e articulador do bolsonarismo evangélico, enfrenta perda de espaço. Sua base fluminense está fragmentada, com o avanço de novas lideranças e desgaste de seu estilo combativo, que hoje gera mais rejeição do que adesão.

Damares, por sua vez, construiu poder por meio de redes políticas, familiares e regionais, especialmente no Norte do país. Ligada à Igreja do Evangelho Quadrangular e ao clã Bengston, ela se beneficia do enfraquecimento de grupos tradicionais, como a família Câmara nas Assembleias de Deus, atingida por crises recentes.

A divergência entre os dois também é estratégica. Malafaia defende a coesão do bloco evangélico para evitar desgaste público. Damares aposta na diferenciação, apresentando-se como liderança moral capaz de denunciar desvios. Em um cenário sem liderança incontestável após Bolsonaro, a disputa simboliza a luta por quem falará em nome da direita evangélica no próximo ciclo político.